Os pastoralistas (teólogos da pastoral da Igreja) atuais refletem que a Igreja vive de etapas: nos inícios o dever, hoje-em-dia o empenho ou o esforço pessoal, amanhã a graça. Estas são formas graduais de viver a dialética sempre presente na vida humana crente, entre a aparência e a realidade do bem que nos atrai, na esperança de uma unidade com Deus, numa vida cada vez mais plena, que chamamos de “eterna”.
Há oito dias atrás, aprendemos com Jesus que primeiro devem estar as pessoas, depois as leis. E estas são importantes, na medida em que defendem a dignidade das pessoas. Estava em questão a consideração das mulheres, sujeitas a repúdio, e as crianças, sujeitas a afastamento. Jesus apelou à união e ao carinho da bênção. Hoje, aprendemos com o Mestre que primeiro estão as pessoas (sobretudo os pobres), depois os materiais, devendo estar estes ao seu serviço e não ao contrário. Se alguém quiser viver plenamente já agora, e não só mais tarde como prémio do cumprimentos de normas, terá de meter a sua própria vida na balança do dar e do receber. Trata-se de nos abrirmos à vida eterna já agora, para todos, conforme Jesus a oferece. Quer dizer, viver segundo um modelo de caminho em que todos se sintam envolvidos e não de estratos sociais ou religiosos em que uns vão à frente e outros ficam para trás. Porque, para uma vida plena é preciso tomar em consideração tudo o que dignifica a vida humana. Não faz sentido uns terem muitos bens materiais e outros pouco; uns terem muita graça de Deus (supostamente e muitas vezes em vão) e outros terem acesso a pouca…
O homem rico aproxima-se de Jesus para saber como alcançar a vida eterna, levando as “credenciais” que era suposto ter presentes no seu tempo. Era um homem justo e procurava a salvação, como todos somos chamados a procurar e a aspirar. Jesus olha-o com estima, partindo da sua retidão. É assim a pedagogia de Jesus: olhando com infinito amor, parte sempre benevolentemente do ponto de partida ou da situação de cada um, recalculando o itinerário, para o ajudar a encontrar o sentido para além da ordem, como fazem as apps de GPS quando estamos perdidos na estrada. Aquele homem estava como que no Antigo Testamento e está diante dele o Novo. O seu exemplo ensina-nos que não basta viver a mando de leis, mas a experimentar a bem-aventurança do dom da própria vida.
O Evangelho deste domingo pode ajudar-nos a refletir que, não raramente, quando alguém está muito rigidamente preso às coisas do cumprimento da lei, também se encontra preso às coisas materiais. Frequentemente, as pessoas que querem garantir a sua sobrevivência no céu, ao mesmo tempo procuram ter a sua segurança material garantida. Jesus já tinha dito mais do que uma vez que “quem perder a vida neste mundo, por minha causa e por causa do Evangelho, há de salvá-la” (Mt 16,25-26). O cumprimento dos mandamentos podem completar o ser humano nesta terra, mas para o Reino é precisa outra propulsão: o seguimento de Jesus que possibilita o desligamento das coisas da terra. Ele aponta-nos o caminho das bem-aventuranças…
A vida dos discípulos, atrás de Jesus Cristo, é como a estrada de um “camião betoneira”: enquanto vai no caminho, o que leva dentro está sempre a ser remoído com a água, para que quando chegar ao destino possa estar fluído e servir de argamassa. Assim, na vida cristã, a capacidade de cumprir os mandamentos virará competência de discípulado-missionário, na medida em que o esforço humano for redirecionado pela mensagem de Cristo. É Ele o salvador e a vocação dos seus é a de acolher e divulgar a todos esta salvação.
A sessão do Sínodo dos Bispos ocupou-se esta semana que passou no tema das relações e vai viver uma semana a refletir sobre os percursos. A Igreja não pode ser uma soma de identidades estratificadas e bem regulamentadas, por vezes caracterizadas por inércia e rigidez, mas uma profecia que leva à concretização do bem e da verdade na vida. Assim, a catequese não é ocupação de tempo livre e a liturgia não é magia, nem a caridade é assistencialismo. Por isso, o neocardeal Timothy Radcliffe pediu aos sinodais para imaginaram novas formas de ser casa de Deus (ler também aqui). Ao lê-lo entendi que o salto que o homem rico foi chamado a dar do cumprimento da lei para o discipulado missionário é semelhante à evolução que Jesus empreendeu entre a mera consideração do povo judeu e o plano de salvação universal, a partir da cura da filha da mulher cananeia (cf. Mt 15,21-28).
Jesus quer envolver o homem rico numa aprendizagem nova onde nem todas as respostas estão à vista, mas é o caminho que o pode levar a encontrá-las. Há perguntas complexas que é preciso saber escutar demoradamente, para, juntos, irmos à procura de respostas, aprendendo coisas novas. Porque a Igreja não é uma apartheid entre os que cumprem mais e os que cumprem menos ou não cumprem, mas uma comunidade onde se aprende a permanecer em Cristo e a questionar juntos sobre o sentido da existência.
Enfim, Jesus propõe aos seus discípulos um câmbio revolucionário: trocar um estilo de vida e de apego que nos prendam a este mundo, para um modo de vier que nos leve a “levantar voo” para uma existência impregnada de vida eterna, pelo menos já em gérmen. Na verdade, entre os dois modelos de vida cristã ─ o da autorrealização no bem e o da colaboração na salvação dos outros ─ Cristo provoca-nos a viver os dois: acolher a salvação pessoal (modelo da Criação) e envolvimento na salvação dos outros (modelo da Redenção). No fundo, de “pescados” a “pescadores”, já nesta vida. Não faz sentido viver só esta vida terrena só como “pescados”. Ficaríamos muito pesados. É preciso gastar a vida como “pescadores”.
Como é que podemos fazer este câmbio que o Senhor os propõe? Através da sabedoria do coração, conforme nos propõe a primeira leitura. É esta sabedoria do Espírito de Deus que nos ajuda a dar valor ao que é devido. É o que nos leva a preferir o que Deus prefere e a escolher o que Jesus escolheria. É, como diz o autor da Carta aos Hebreus, a Palavra como gume afiado que nos ajuda a discernir tudo até à medula do nosso ser, como bisturi que faz a biopsia para se detetar os “tumores” que prejudicam a nossa saúde espiritual. Esta sabedoria, adquirímo-la através da escuta da palavra e na oração, e deixamos que o Senhor no-la exerça nos sacramentos, em especial da Eucaristia e Reconciliação, e, como não poderia deixar de ser, aprendêmo-la exercendo o ato de doar aos pobres, restituindo o que nos sobra e partilhando caridosamente o que, por vezes, nos faz falta. É por aqui que o “dedo de Deus” se observa na nossa vida e esta começa a ser plena.

Jesus convida-nos a não cairmos ou a superarmos a tentativa à partida falhada de adorarmos a dois senhores: o deus patrão ou juiz e o deus dinheiro. Para quem assume a sua condição de criatura, Jesus faz-Se caminho que ajuda a superar seja que debilidade ou condição for, ajudando a experimentar nesta vida os alvores da vida celeste. Adorando um só Deus – o Pai que nos foi apresentado por Jesus Cristo – o perder nesta vida transforma-se no ganhar já a outra vida. O verdadeiro viver começa aqui!
