L 1 Gl 2, 1-2. 7-14; Sl 116 (117), 1. 2 Ev Lc 11, 1-4
A oração que Jesus ensina aos seus discípulos é uma fórmula que promove a abertura do homem ao mistério de Deus que Se revela. E cada uma das suas petições significa um aspeto da tensão para o Reino que Deus veio instaurar em e através de Cristo.
Os discípulos pediam a Jesus que lhes ensinasse a rezar porque com toda a certeza O viam a rezar e constatavam a relação entre Ele e o Pai, assim como entre eles e as multidões. Ele, por sua vez, não sendo ciumento da sua relação de intimidade com o Pai, quer precisamente introduzi-los nesta mesma relação de intimidade (cf. PAPA FRANCISCO, Catequese sobre o Pai Nosso – 1).
Hoje, também, cada um pode pedir ao Senhor: “ensina-me a rezar?”. Então, mas já não sabemos rezar, até de cor, a oração do Pai Nosso? Sim, mas é conveniente colocar na balança o fator da relação social daquela intimidade. A minha oração ao Pai parte ou procura estabelecer uma relação com os outros? A minha oração é social? Franz Jalics, na sua obra “Encontrar-se com Deus” (Ed. a cargo de Pablo D’Ors) não hesita em provocar-nos com a afirmação de que o caminho para Deus é muito parecido com o caminho que um ser humano faz para ir ao encontro de outro ser humano. E que a oração cristã consiste, sobretudo, em interpretar a vida quotidiana à luz da revelação cristã.
Antes de rezarmos o Pai Nosso, devemos assegurar-nos se entramos nessa relação com duas chaves (como aquelas chaves de cofre bancário, que precisa sempre de duas pessoas para ser aberto): a da humildade diante de Deus Pai, característica da filiação, e a da solidariedade para com os irmãos, caraterística da fraternidade. Ser humildes no receber para sermos solidários no dar. Entre cada oração do Pai Nosso, é-nos possibilitado viajar da intimidade filial à solidariedade fraternal.
O episódio que nos é relatado na carta de Paulo aos Gálatas fala-nos do contrário da oração-relação: é a dissimulação, que dá origem a partidarismos que não facilitam a revelação do mistério de Deus. Como vemos, a oração do Pai Nosso fala de bens espirituais e materiais essenciais, revelando-nos que Jesus nos desvia de pedir a Deus coisas acessórias ou, até, doutrinas teóricas vãs (na verdade, não há só coisas materiais vãs, mas também elementos imateriais inúteis!). Aquele percurso da intimidade à solidariedade impede-nos de cair na armadilha de Pedro que, antes da censura de Paulo, à frente deste tinha uma certa postura e à frente de Tiago tinha outra. Não havia só “partidos” fora; ele próprio estava dividido. Isto sugere que quando na Igreja há fragmentos que fragilizam a comunhão, é porque os crentes estão também divididos dentro de si próprios. Então, para obtermos unidade por dentro e por fora, é preciso começar por colocar Deus no centro. Concomitantemente, começarão a germinar rebentos de solidariedade.
Em conclusão: a necessidade de imitarmos Jesus na oração do Pai Nosso e de avaliar sempre as disposições e o realismo com que fazemos esta oração, tem o seu campo de prova na forma como vivemos dentro da Igreja e em relação com o mundo. A oração do Pai Nosso, bem rezada, permite-nos ser os mesmos dentro e fora, transparência do amor de Deus para os outros, num trespasse contínuo entre o “Pai meu” ao “Pai Nosso”.
Portanto, oração sem relação benevolente é dissimulação. Relação orante é construção do Reino de Deus, onde todos são chamados a entrar. Confiemos no Espírito Santo, o grande protagonista da nossa oração cristã. Segundo o Papa Francisco, só conseguiremos dar espaço ao Espírito Santo quando superamos uma exagerada fixação no nosso ponto de vista. Apelando à defesa da unidade da Igreja e à superação de posições centradas apenas no “próprio ponto de vista”, para trabalhar “de forma sinodal”, o Papa afirmou que
O Espírito Santo nem sempre realiza a unidade de forma repentina, com intervenções milagrosas e decisivas, como no Pentecostes. Fá-lo também – e na maior parte dos casos – com um trabalho discreto, respeitoso dos tempos e das diferenças humanas, passando pelas pessoas e pelas instituições, pela oração e pelo debate. De forma sinodal, diríamos hoje.
Peçamos ao Espírito Santo que nos ajude a ser instrumentos de unidade e de paz. O Pai Nosso é a oração dos agentes de reconciliação com Deus, consigo próprios, com os outros e com a criação. Ser agentes de reconciliação num mundo fraturado é uma missão que nos diz respeito a todos, porque aponta para assumir uns estilos de vida e não outros, para serviços de justiça e de paz, a atender à crise do meio ambiente como expressão da crise que origina pobreza e exclusão. Só nesta amplitude de relações é que fará sentido pedirmos a Jesus que nos ensine a rezar.
(Quem quiser pode aprofundar com a ajuda do Papa Francisco as várias petições do Pai Nosso.)
