navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Gl 1, 6-12; Sl 110 (111), 1-2. 4-5. 7-8. 9-10ac Ev Lc 10, 25-37, na memória da Virgem Santa Maria do Rosário e Jornada de Jejum e de Oração pela Paz

No dia em que a Igreja nos convida a celebrar a memória da Virgem Santa Maria do Rosário e a Jornada de Jesus e Oração pela Paz, proclamamos a parábola do Bom Samaritano. Poderiam ser outras leituras, mas preferencialmente, fazemos a leitura corrente do Lecionário litúrgico (não havendo razões pastorais contextualizadas que a declarem Festa ou Solenidade).

A parábola contada por Jesus serve para elucidar o doutor da Lei sobre quem é o seu “próximo”. Como aprendemos na liturgia de ontem, XXVII Domingo do Tempo Comum (B), a consideração de uma pessoa está antes que a consideração da lei (cf. Ermes Ronchi). É este o princípio evocado por Jesus, que coloca não só a mulher ao lado do homem, mas também as crianças como prioridade. A liturgia da Palavra de ontem, como a de hoje, leva-nos a fazer uma revolução “copernicana” no modo de ver os outros e de nos relacionarmos com eles. Não é à toa que a semana que se está a vier no Sínodo sobre a Sinodalidade focalize a atenção dos sinodais no campo das relações humanas dentro da Igreja. Os relacionamentos com o Senhor, entre irmãos e irmãs e entre as Igrejas “sustentam a vitalidade da Igreja muito mais radicalmente do que as estruturas (cf. Vatican News).

Na admonição do Evangelho de hoje lemos que

Nesta parábola mostra-se como um estrangeiro entendeu melhor o preceito da caridade fraterna do que os membros do povo de Deus. O próximo está ao nosso lado e não é necessário fazer escolhas para o encontrar. A parábola é ainda um sinal da vocação dos pagãos ao Evangelho. Uma antiga tradição interpreta o bom Samaritano como sendo o próprio Cristo, que Se abeirou de nós, estranhos a Ele, para nos curar.

O doutor da Lei procurava a herança da vida eterna e Jesus apresenta-lhe o próximo a quem é chamado a amar, ao mesmo tempo que a Deus e a si mesmo. E não há justificações que desviem desta concomitância nas relações com Deus, connosco próprios e com os outros.

A prática do Evangelho não é só dos de dentro da Igreja para os de fora. Há por aí muitas pessoas que o praticam sem se referenciarem a um tipo de rito ou culto. O que podemos fazer é abençoar as boas ações de muitos, quer dizer, bendizer a Deus porque há muitas pessoas de bem, independentemente da visibilidade de uma pertença. A patente pertencerá sempre a Deus-Amor que atrai desde onde quer!

Anda por aí um vídeo no tik tok com a seguinte provocação:

Tenta olhar o mundo desta perspetiva: se tens comida no frigorífico, roupa vestida, um teto sobre a cabeça e um lugar onde dormir, és mais rico do que 75% das pessoas no mundo; se tens dinheiro para gastares como preferes e a liberdade de ir aonde queres, fazes parte de 18% das pessoas com mais bem-estar no mundo; se hoje estás vivo e com boa saúde, és mais afortunado do que 1 milhão de pessoas que não sobreviverão até ao final da semana; se podes ler, olhar e compreender esta mensagem, és mais afortunado do que 3 mil milhões de pessoas no mundo, que não podem aceder ao conhecimento e às informações que nos circundam. A vida não é feita para lamentar-se pelas dores e dificuldades, mas para dar prioridade às coisas que contam.

O Santo Padre denuncia como vergonhosa a incapacidade da comunidade internacional para travar a guerra no Médio Oriente. Afirma que os homens de hoje não sabem como encontrar a paz e a nós cristãos convida a não nos cansarmos de a pedir a Deus.

Poderíamos perguntar: para quê ter comida, roupa, bem-estar, liberdade, conhecimentos, etc., se, afinal, não temos a capacidade de nos fazer próximos de uma forma eficaz? Esta pergunta não é só dirigida ao sacerdote e ao levita da parábola, mas a nós mesmos. Nas palavras de Jesus, o estrangeiro é a concretização do mandamento principal que é fazer-se próximo de quem sofre. Edward Schillebeeckx diz que

A relação de proximidade surge quando se ajuda e se assiste, quando alguém se acerca a outra pessoa. Este é o amor cristão ao próximo, que se realiza quando nos acercamos ao outro com uma boa ação; trata-se de unir os homens e fomentar a ajuda mútua e a amizade.

O dicionário de Língua Portuguesa define “próximo” como “cada pessoa em particular, em relação a cada um de nós” e, ainda, como “conjunto de todos os homens”, o “que não está distante”, “vizinho”. Portanto, próximo é aquele que pertence ao género humano e que deve ser objeto de caridade e solidariedade, aquele a quem podemos fazer de amigo.

A memória de hoje ─ instituída pelo papa são Pio V no aniversário da vitória obtida pelos cristãos na batalha naval de Lepanto (1571) e atribuída ao auxílio da Santa Mãe de Deus, invocada com a oração do Rosário ─ é um convite a todos os fiéis para que meditem os mistérios de Cristo, em companhia da Virgem Maria, que foi associada de modo muito especial à encarnação, à vida pública, à paixão e à ressurreição do Filho de Deus. Maria, com o seu Sim, fez-Se próxima de Deus e de toda a humanidade, para quem Cristo nasceu, viveu, padecei, morreu e ressuscitou.

Na leitura do Ofício desta memória, lemos o abade São Bernardo:

O Senhor dizia desde o início: Eu tenho pensamentos de paz e não de aflição. Mas o vosso pensamento está em Vós, Senhor, e nós ignoramos o que pensais. Com efeito, quem conheceu a mente do Senhor ou quem foi o seu conselheiro? O pensamento de paz desceu do Céu para realizar a sua obra de paz: O Verbo fez Se homem e habita já no meio de nós. Na verdade, habita pela fé nos nossos corações, na nossa memória, no nosso pensamento, e desceu até à própria imaginação. Que primeiro pensamento teria o homem acerca de Deus, a não ser talvez um ídolo fabricado pelo seu coração? Deus era incompreensível, inacessível, invisível e para além de todo o nosso pensamento; agora, porém, quis ser compreendido, quis ser visto, quis ser pensado. De que modo? Sem dúvida recostado no presépio, deitado no regaço da Virgem, pregando na montanha, passando a noite em oração; ou então, suspenso da cruz, lívido na morte, livre entre os mortos e dominando sobre o poder do inferno; ou também ressurgindo ao terceiro dia e mostrando aos Apóstolos os lugares dos cravos, sinais de vitória, e finalmente subindo, na presença deles, ao mais alto do Céu.

Onde há guerra e, portanto, onde não há paz, é porque há mais consideração da lei antes que da pessoa, é onde há mais homem e menos Deus, é onde não se coloca no centro das atenções os mais pequeninos e vulneráveis, é onde a força do homem se interpõe à fragilidade de Deus que é e só pode ser Amor incondicional e universal. As leis de Deus nunca põe o ser humano em segundo plano, mas como prioridade de todas as suas ações. Se quisermos imitar Deus…