navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Jb 3, 1-3. 11-17. 20-23; Sl 87 (88), 2-3. 4-5. 6. 7-8 Ev Lc 9, 51-56, na memória de Santa Teresa do Menino Jesus, virgem e doutora da Igreja. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

Jesus, chegando ao auge da sua entrega, “tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente”. Estes mensageiros “sapadores” fazem-me lembrar as seguintes palavras de Jesus:

Qual é o rei que, ao partir para a guerra contra outro rei, não se senta primeiro a examinar se é capaz de se opor, com dez mil homens, a um outro que vem contra ele com vinte mil? Se chegar à conclusão de que não é capaz, enquanto o outro ainda está longe, envia-lhe uma delegação a pedir-lhe as condições de paz. Assim, todo aquele que de entre vós não renunciar a todos os seus bens não pode ser meu discípulo.

Lc 14,31-33

Jesus dá o seu testemunho aos discípulos quanto ao desapego dos bens e até da própria vida, mas também quer ainda, no caminho, tentar encontrar, entre os samaritanos, aliados para o seu projeto de paz. Apoiar-se-á neste modo de agir de Jesus Tomáš Halík, ao afirmar que:

no caminhar juntos que carateriza a sinodalidade, a Igreja precisa urgentemente de aliados, com quem partilha o caminho comum. Mas, para tal, não deve abordar os outros com o orgulho e arrogância de quem possui a verdade. É que a verdade é um livro que nenhum de nós leu até o fim. Não somos os donos da verdade, mas amantes da verdade e amantes d’Aquele que pode dizer: Eu sou a Verdade. Neste seguimento, o teólogo propõe a noção de “diaconia política”, que “cria uma cultura de proximidade e solidariedade, de empatia e hospitalidade, de respeito mútuo. Constrói pontes entre pessoas de diferentes povos, culturas e religiões”.

Cf. 7MARGENS

Para o teólogo checo, este tempo que vivemos será o tempo da visitação, que é tempo da oportunidade. Neste sentido, Jesus vai deixando a fase das palavras e passa à ação de caminhar para a sua entrega definitiva. Nesta aventura, implica os seus discípulos na verdadeira escola que é ser “sapadores” da mensagem da paz. Trata-se de experimentar o valor do seguimento, da esperança, da pobreza e do amor aos outros. Hoje, à luz do que escreveu Paulo, podemos sempre completar na nossa carne o que falta à Paixão de Cristo (cf. Col 1,23s).

(Faço aqui um parêntesis para partilhar que um dos meus párocos já falecidos deixou-me um dos mais belos testemunhos ao dizer que os anos mais belos da sua experiência paroquial foram aqueles em que a vida começou a ficar mais complicada e conflitual com os paroquianos. Faz-me lembrar a relação de Jesus e dos seus discípulos com os samaritanos, que não os queriam hospedar só porque iam a caminho de Jerusalém. Se ao menos soubessem o que iam lá fazer e o testemunho que o Mestre estava para nos dar a todos!!)

Os discípulos de Jesus, por seu lado, caminham com Ele, mas sem entenderem o que o Mestre vai fazer. As suas mentes estão cheias da imagem de uma apocalíptica popular e vingativa e utilizam o poder de Deus para proveito próprio: pedem que o fogo do céu caia sobre os samaritanos inimigos. A este respeito, sobre os salmos imprecatórios que temos na liturgia das horas (e ainda não temos ali os piores) ouvi um dia explicar o biblista D. António Couto que podemos rezá-los no coro para não o fazermos literalmente na vida. Quer dizer, na oração podemos aproveitar esta catarse, mas na vida teremos de imitar mais a compaixão de Jesus. Os discípulos estão mais cheios de Elias, de onde vem a tradição do fogo, do que cheios de Jesus. E Jesus era mais do que Elias!

Jesus vem-nos “batizar no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16), mas quer dizer que veio queimar o mundo velho e fazer surgir uma nova realidade do Espírito. Não vamos, pois, ler as palavras à letra e andar por aí a lançar incêndios literalmente ou nas relações entre aspas. João e Tiago querem instrumentalizar Jesus para os seus interesses, pretendendo manipular a decisão escatológica de Deus, traduzindo-a sob a forma de condenação e de superioridade sobre o mundo. Esta atitude continua a persistir numa parte considerável dos crentes…! Não falta por aí quem rogue pragas, umas mais eruditas que outras!! (Alerta que há pessoas tidas socialmente como muito inteligentes a utilizar meias verdades para julgar e condenar…)

O caminho de Jesus é diferente, não se trata de fazer sofrer os outros, mas de assumir de uma maneira salvadora o próprio sofrimento; não se trata de arrancar o mal de qualquer maneira (o “joio”), mas de, pela cruz, o transformar em bem (no “trigo”). É este a patente do poder de Deus. É certo que o fogo continua a ser símbolo do juízo de Deus, mas quem o ateia são os próprios condenados, no momento em que preferem a sua destruição ou a destruição dos outros. O único “fogo” que nos oferecido em Jesus foi o de amar os outros até ao fim, como o próprio Jesus testemunhou.

É este amor que Santa Teresa do Menino Jesus viu no centro da Igreja, no qual viu fazer sentido a sua procura vocacional e a partir do qual passou a amar a todos. Quis ser o amor e no verdadeiro amor ninguém pode desamar.