navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Jb 1, 6-22; Sl 16 (17), 1. 2-3. 6-7 Ev Lc 9, 46-50, na memória de São Jerónimo, presbítero e doutor da Igreja

Para quem está atento ao ritual da Ordenação dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos, ou nos votos perpétuos de quem se consagra inteiramente a Deus, um ponto de passagem entre a Liturgia da Palavra e a oração que confere esse estado, após atestada a idoneidade dos candidatos, é o gesto da prostração. Durante o mesmo, entoa-se a ladainha de todos os Santos. Enquanto o referido gesto nos coloca em pé de igualdade com os irmãos ou irmãs (no caso das religiosas) que vivem o mesmo estado de vida, em relação a todas as outras pessoas (que estarão naquele momento de pé ou de joelhos) coloca os candidatos abaixo. Como símbolo, transporta-nos para a realidade do arrebatamento de que Jesus também deu testemunho ao descer à terra para nos servir (cf. Flp 2, 6-11). É um gesto de humildade diante de tão grande e imerecido dom, mas necessário para o bem do povo de Deus.

Os discípulos de Jesus que vemos hoje preocupados com o título de “maior” estavam prestes a ser convidados a prostrarem-se diante da pequenez que está em Jesus e em quem Ele coloca ao seu colo. Colocando os pequeninos no centro, Jesus ensina-nos a todos que a humildade não tem vergonha de acolher a simplicidade e de se ocupar no serviço. São Jerónimo, hoje, é para nós testemunho de submissão à Sagrada Escritura que soube tão eloquentemente traduzir para o contexto da Igreja para o mundo no seu tempo. No prólogo ao comentário que faz ao Livro do Profeta Isaías, diz-nos que “ignorar as Escrituras é ignorar Cristo” e que “Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus, aquele que não conhece as Escrituras não conhece o poder de Deus nem a sua sabedoria”. Por isso, para quem quer seguir Jesus Cristo e servi-l’O nos irmãos, a convivência quotidiana com a Palavra de Deus é a melhor e única maneira de atestar a idoneidade de um candidato para que possa fazer a experiência da prostração. É dali, daquele chão onde se irmanam e de onde se levantam todos os que se consagram a Deus, que se vive a perspetiva do serviço alicerçado no poder de Deus e não no próprio poder ou do poder dos homens.

E para que o cristão seja capaz de servir com os pés bem assentes na terra, como Jesus fez, é chamado a fazer como dizia o teólogo Karl Barth: “O cristão deve segurar numa das suas mãos um jornal e na outra a Bíblia”. É por isso que os seminaristas do Seminário Interdiocesano de São José, uma vez por semana, são convidados, após a homilia, a fazer a partilha da sua escuta da Palavra de Deus a partir de um olhar sobre a realidade eclesial e social no nosso mundo.

No dia de hoje, ao ler as notícias desta última viagem do Papa Francisco ao Luxemburgo e à Bélgica, ocorrida neste passado fim-de-semana, contemplo neste Pontífice uma síntese vocacional madura da lição aprendida de Jesus, assim: enquanto que alguns “maiorais” que defendem certas patentes doutrinais sem compaixão o vão criticando num ou noutro procedimento, ali está ele “prostrado” diante de universitários a defender a vida contra o aborto, acusado de conservador, e, complementarmente aos momentos formais, aventurou-se a tomar um simples pequeno-almoço com refugiados, faz uma visita surpresa um lar de idosos e foi tomar café a um bar da esquina. E ainda defendeu a Igreja de todo o tipo de abusos, abraçando as vítimas. A defender a feminilidade da Igreja, sublinhando o lugar importante das mulheres, contra a sua masculinização. Percebeu-se em alguns discursos a tibieza do Vaticano, que levou o Papa a improvisar. Deixou claro que a Igreja deve ser serva de todos.

Chegam estas referências noticiosas da atitude do Papa Francisco para na oração deste dia dar graças a Deus por este Sumo Pontífice, suplicando também ao Bom Pastor que lhe dê saúde para conduzir esta barca eclesial.

Hoje, Jesus e o Papa Francisco ajudam-me a conhecer melhor Job, aquele personagem distante de uma resiliência grande. União com Deus a toda a prova.