navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Nm 11, 25-29; Sl 18 (19), 8. 10. 12-13. 14 L 2 Tg 5, 1-6 Ev Mc 9, 38-43. 45. 47-48, no XXVI Domingo do Tempo Comum (B); Dia Mundial do Migrante e Refugiado

A liturgia da Palavra de hoje leva-nos à vertigem da reviravolta que Deus é capaz de fazer aos nossos “cânones”. Ele, de facto, não cabe nas nossas estruturas, organizações e programas. E só podemos ver d’Ele o que Ele nos quiser mostrar. Participar nas suas dinâmicas implica mais da sua vontade amorosa e menos dos nossos cálculos humanos, por vezes, mesquinhos. O tema destas leituras é sobre a missão de profetizar e de quem o pode fazer. E está claro que Deus pode colocar ao seu serviço quem quer.

A primeira leitura e o Evangelho completam-se. Vejamos que aqueles dois ─ Eldad e Medad ─ não foram pontuais à reunião na tenda. E, no entanto, foram eles também destinatários do mesmo Espírito que os levou a profetizar no acampamento. O “quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta” de Moisés a Josué não deixa dúvidas sobre a relação ambivalente que existe entre o ser emissor e recetor na missão de profetizar.

Nas nossas comunidades paroquiais, arciprestados, os movimentos, associações e obras, não cabe todo o dinamismo do Espírito e oxalá que nas dioceses se procure fazer uma síntese entre a programação/organização e a integração do desconhecido, incluindo aqueles dinamismos de Deus que ainda não nos foi dado conhecer. Quem vive a experiência da Igreja com realismo crítico e esperançoso sabe que ─ não obstante a relação que existe entre a presidência aos sacramentos e às comunidades ─ em todas as dimensões do tríplice missão de ensinar, santificar e testemunhar socialmente a fé há uma múltipla e graudal participação de muitos ministérios e intervenientes. Que o digam os que vivem o serviço sem instituições formais, em relação aos que são “investidos” de um certo poder.

O Evangelho mostra-nos que o ciúme de um dos Apóstolos levou-o a ter a oportunidade de aprender de Jesus que não podemos querer a exclusividade sobre Deus e ninguém pode pretender dominar o Seu Espírito, que “sopra onde quer”, como nos transmitiu com fidelidade o próprio evangelista (Jo 3,8).

A afirmação de Jesus a João ─ “Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós” ─ ainda hoje pode ser polémica dentro das comunidades eclesiais, dependendo do contexto em que é repetida (excetuando o contexto litúrgico, em que o respeito do ambão se impõe). É por causa das fronteiras (visíveis e invisíveis) da Igreja, na sua relação de tensão entre o mundo e o Reino de Deus.

A respeito deste episódio do Evangelho convinha recordarmos alguns números do constituição dogmática Lumen gentium sobre a Igreja:

Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos, para se cumprir o desígnio da vontade de Deus que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolveu juntar em unidade todos os seus filhos que estavam dispersos. (…) E assim, o Povo de Deus encontra-se entre todos os povos da terra, já que de todos recebe os cidadãos, que o são dum reino não terrestre mas celeste. Pois todos os fiéis espalhados pelo orbe comunicam com os restantes por meio do Espírito Santo, de maneira que «aquele que vive em Roma, sabe que os indianos são membros seus»,. Mas porque o reino de Cristo não é deste mundo (cfr. Jo. 18,36), a Igreja, ou seja o Povo de Deus, ao implantar este reino, não subtrai coisa alguma ao bem temporal de nenhum povo, mas, pelo contrário, fomenta e assume as qualidades, as riquezas, os costumes e o modo de ser dos povos, na medida em que são bons; e assumindo-os, purifica-os, fortalece-os e eleva-os.

N.º 13

A Igreja vê-se ainda unida, por muitos títulos, com os batizados que têm o nome de cristãos, embora não professem integralmente a fé ou não guardem a unidade de comunhão com o sucessor de Pedro. Muitos há, com efeito, que têm e prezam a Sagrada Escritura como norma de fé e de vida, manifestam sincero zelo religioso, creem de coração em Deus Pai omnipotente e em Cristo, Filho de Deus Salvador…

N.º 15

…aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna. Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida reta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é considerado pela Igreja como preparação para receberem o Evangelho (34), dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida.

N.º 16

A vida cristã não é um privilégio de poucos, mas um compromisso de serviço para quem o queira acolher. Por isso, urge o anúncio do Reino de Deus, venha de onde ele vier, “pipocado” pelo fogo do Espírito Santo de uma semente do Verbo semeado nos corações dos seres humanos.

Porque Deus quer-nos inteiros, não só quanto aos membros do corpo de cada pessoa, mas também quanto ao corpo do seu Povo. Quando Jesus nos adverte, na segunda parte do Evangelho, de que ─ “é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga” ─ não é para que nos mutilemos literalmente (bem sabemos o que isso custo a Orígenes), mas para nos desviar dos escândalos que afastam da possibilidade da plenitude da vida. Quando o Sumo Pontífice nos diz que a desconsideração do corpo é uma heresia que descaracteriza a confissão de fé em Cristo. Vejamos o n.º 7 da Carta Placuit Deo:

É necessário afirmar que, segundo a fé bíblica, a origem do mal não se encontra no mundo material e corpóreo, experimentado como um limite e como uma prisão da qual deveríamos ser salvos. Pelo contrário, a fé proclama que o mundo inteiro é bom, enquanto criado por Deus (cf. Gen 1,31; Sab 1,13-14; 1Tim 4,4), e que o mal que mais prejudica o homem é aquele que provém do seu coração (cf. Mt 15,18-19; Gen 3,1-19). Pecando, o homem abandonou a fonte do amor, e se perde em falsas formas de amor, que o fecham cada vez mais em si mesmo. É esta separação de Deus – isto é, Daquele que é fonte de comunhão e de vida – que leva à perda de harmonia entre os homens e dos homens com o mundo, introduzindo a desintegração e a morte (cf. Rom 5,12). Consequentemente, a salvação que a fé nos anuncia não diz unicamente respeito à nossa interioridade, mas ao nosso ser integral. De facto, é a pessoa inteira, em corpo e alma, criada pelo amor de Deus à sua imagem e semelhança, que é chamada a viver em comunhão com Ele.

Para que os mais comprometidos nas comunidades da Igreja não possam cair naquela “pedra de tropeço” que é o ciúme que divide e desintegra os membros do Corpo de Cristo, é necessário aprender e exercitar o bom acolhimento a todos, sabendo colocar os talentos de todos ao serviço de todos, para chegarmos ao maior número, como desejou Paulo (1 Cor 9,19). O convite de Jesus (prefigurado pela atitude de Moisés), é de abertura a todos e de fechamento a todo o mal. Penso que é este o segredo de uma vida cristã promissora de salvação: integrar o maior número de pessoas que conseguirmos; quanto ao mal, dentro do que nos for possível: nenhum. Quanto se confundem as causas do mal com as pessoas, então o caminho da fé começa a sectarizar-se e a perder a universalidade que o Criador e o Redentor previram e providenciam com o Seu Espírito Santo.

Na sua reunião com os jovens da universidade de Lovaina, por ocasião da sua visita à Bélgica, o Papa Francisco afirmou que “a busca pela verdade deve superar o individualismo e o desejo de poder”.

Neste Dia do Migrante e Refugiado, em que o Papa Francisco nos escreve uma mensagem que nos garante que “Deus caminha com o seu povo”, olhamos ou imaginamos os rostos de muitos seres humanos que parecem estar de fora (como Eldad e Medad e aquele “exorcista” sem nome do Evangelho) e que somos chamados a acolher na convicção de que neles estarão muitos talentos e dons de que nós mesmos precisamos para o nosso desenvolvimento humano e espiritual, uma vez que somos “migrantes” para o Reino de Deus.

Oração (Papa Francisco)

Deus, Pai omnipotente,
somos a vossa Igreja peregrina
a caminho do Reino dos Céus.
Habitamos, cada qual, na própria pátria
mas como se fôssemos estrangeiros.
Cada região estrangeira é a nossa pátria
e contudo cada pátria é, para nós, terra estrangeira.
Vivemos na terra,
mas temos a nossa cidadania no Céu.
Não nos deixeis tornar patrões
da porção do mundo
que nos destes como habitação temporária.
Ajudai-nos a não cessar jamais de caminhar,
juntamente com os nossos irmãos e irmãs migrantes,
rumo à habitação eterna que Vós nos preparastes.
Abri os nossos olhos e o nosso coração
para que cada encontro com quem está necessitado,
se torne um encontro com Jesus, vosso Filho e nosso Senhor.
Ámen.