navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Co 11, 9 – 12, 8; Sl 89 (90), 3-4. 5-6. 12-13. 14 e 17 Ev Lc 9, 43b-45

“Estavam todos admirados com tudo o que Jesus fazia”. De facto, entre as breves mas significativas palavras que Jesus terá dito ─ consta que todo o Novo Testamento demora a ler/a ouvir 24 horas (aproximadamente 3.2 Gb de memória numa pendrive) ─ e as ações que realizou vai uma diferença muito grande que não nos deve estranhar tanta admiração. Não nos estranha, também, que João evangelista, nas duas conclusões do seu Evangelho tenha deixado escrito: “Muitos outros sinais realizou Jesus diante dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro” (Jo 20,30) e “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez, que se fossem escritas uma por uma, considero que nem o próprio mundo poderia conter os livros que se escreveriam” (Jo 21,25). É que Jesus é a Palavra em Ação.

Porém, na atividade do Senhor havia algo que Ele fazia questão de colocar diante da mesma atenta admiração: “O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens”. Ou seja, a sua grande obra, que não era tão vistosa nem era compreensível, estava para acontecer: a obra da salvação da humanidade muito para além dos milagres e das curas que lhe serviam de símbolos ou sinais.

A admiração, neste texto, é obrigada a “baloiçar-se” com o medo. E faltava aos discípulos a compreensão, aquele ponto de apoio central ─ como se de um “baloiço sobe e desce” se tratasse ─ para que quer a experiência da alegria pelas curas, quer a da compaixão no sofrimento eminente fossem por todos partilhados. Ora, vai neste sentido o discurso do Papa Francisco na universidade de Lovaina, na sua atual visita à Bélgica, cintando a Veritatis gaudium n.º 3, para nos convidar a “alargar os confins da nossa consciência”:

… a formação cultural nunca é um fim em si mesma e as Universidades não devem correr o risco de se tornarem “catedrais no deserto”; elas são, pela sua própria natureza, lugares que impulsionam ideias e novos estímulos para a vida e o pensamento humanos e para os desafios da sociedade, ou seja, espaços generativos. É bom pensar que a Universidade gera cultura, gera ideias, mas sobretudo que promove a paixão pela busca da verdade, ao serviço do progresso humano. Em particular, as Universidades católicas, como esta, são chamadas a «prestar o decisivo contributo de fermento, sal e luz do Evangelho de Jesus Cristo e da Tradição viva da Igreja sempre aberta a novos cenários e propostas»

Assim, o livro de Coelet nos ajuda a superar as limitações daquele “baloiço” entre uma admiração infértil e o medo indolente, convidando a nossa compreensão a olhar para Deus. Mostra-nos que as mudanças do tempo são como as daquele “baloiço”, pois aos caminhos atrativos para o homem sucederá o momento de prestar contas a Deus. O que significa que Deus pede contas, porque dá, antecipadamente, oportunidades e dons. E a par da alternância das diversas atividades dos seres da terra, a vida humana está continuamente só presa por um fio. “Escutai bem o que vou dizer-vos”, uma réplica que Jesus faz do aviso da Sabedoria: “Lembra-te do teu Criador nos dias da juventude (…) antes que…”. Somos assim postos diante d’Aquele que avisa para não deitarmos a perder o melhor: o que, definitivamente, poderá afastar o coração da tristeza e o corpo do sofrimento. É o regozijo de apoiarmos e ocuparmos a nossa vida naquilo que agrada ao Senhor.