navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Co 3, 1-11; Sl 143 (144), 1a e 2abc. 3-4 Ev Lc 9, 18-22, na memória litúrgica de São Vicente de Paulo

Hoje, encontro na Carta n.º 2546 de São Vicente de Paulo, presente no ofício de leitura, dois pontos de força para interpretar o Evangelho do dia:

1) Um é sobre o papel importante dos pobres na mediação para podermos amar melhor a Deus. Sim, os pobres têm um papel, porventura mais importante do daqueles não o são (tanto) ou que não se consideram como tal. É o papel de mediadores da nossa resposta ao amor de Deus. Quem quiser retribuir o amor a Deus sabe que pode fazê-lo sem demora no socorro aos pobres. Os pobres revestem-se e participam, assim, de uma soberania que não podemos deixar de considerar, uma vez que Jesus, para nos salvar, também Se fez pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza. A nossa vontade de ser espiritualmente nobres só diante de Deus pode distrair-nos desta consideração.

2) Outro ponto de força é o da relação da caridade com a oração. Enquanto “máxima norma”, a caridade informa a oração e é prolongamento dela. Uma relação razoável entre o fazer bem aos pobres e a oração diante de Deus é terapia contra os escrúpulos doentios e desnecessários para a moral cristã. Aliás, no grego “terapia” traduz-se como serviço. Quer dizer que perspetivar a oração numa permanente tensão para o auxílio aos pobres, livra-nos das mais graves doenças espirituais.

A resposta de Jesus a Pedro, na sequência da sondagem sobre o que diz d’Ele a multidão e do “escrutínio” que Ele faz aos seus discípulos, significa que Ele vai passar por um caminho da pobreza que está no sofrimento, na rejeição, na morte. Mas não deixa de anunciar que a ressurreição é a libertação de toda a pobreza. Jesus ensina-nos que o caminho da pobreza, vivido sob o Espírito Santo, é uma ponte para a vida plena. Não foi à toa que o Papa Francisco um dia disse que os pobres são para nós um passaporte para o paraíso.

Com Coelet podemos concluir que a pobreza não tem de ser só um condicionalismo vivido no tempo, uma vez que não tem a última palavra, mas, também, uma possibilidade para ultrapassar as limitações do tempo. É um paradoxo que, não só bem interpretado, mas também bem vivido na prática, nos dará muita sabedoria de vida. A pobreza pode “emagrecer-nos” na terra, mas também pode “nutrir-nos” muito para o céu.

E se como noz diz a Sabedoria, há tempo para tudo, quer dizer que também se poderia aproveitar os recursos que ele nos permite obter em favor do que é mais urgente: a que a experiência humana seja o mais equitativa possível.