L 1 Co 1, 2-11; Sl 89 (90), 3-4. 5-6. 12-13. 14 e 17 Ev Lc 9, 7-9
Hoje contemplamos em Herodes uma pessoa que estava bem informada. Quem como os homens da nobreza deixa de ter acesso aos melhores meios de comunicação? Herodes não ficava contente com aqueles “uns”, “outros” “e outros” que distorciam as informações acerca da identidade de Jesus. Segundo Lucas, Herodes “ouviu dizer tudo o que Jesus fazia” o que o fazia andar perplexo diante de tais divagações. Ou seja, a identidade mal-informada não correspondia às obras que Jesus fazia, que eram inéditas. E perguntava “Quem é esse homem, de quem oiço dizer tais coisas?”
O facto de Herodes ter acesso à informação correta acerca do que Jesus fazia significa que, a par das fake news também proliferava um verdadeiro anúncio acerca do projeto do Reino de Jesus, pelas palavras e as obras que a acompanhavam/credibilizavam.
Herodes faz-me lembrar Zaqueu. Este procurava, também, ver Jesus subindo a um sicómoro, por causa da sua baixa estatura. Herodes procurava ver Jesus, certamente através dos “parapeitos” ou “ameias” do seu “castelo”, mas não se daria ao desluxo de pisar o mesmo chão a partir do qual Jesus ia de encontro à realidade para servir. Zaqueu deixou-se “invadir” na própria casa por aquela Graça santificante que passava; Herodes não deveria mostrar mais do que a sua cabeça, protegendo-se por detrás das ameias.
De facto, Jesus e Herodes tinham poderes diferentes. Jesus demonstrava/demonstra pelo que fazia/faz o poder de servir os outros; Herodes, pelos conhecimentos que adquiria ─ circunscritos à aparência social e não à realidade integral (que é mais importante que a ideia, no dizer de Francisco) ─ aproveitava para se servir os seus interesses.
Anselm Grün, no livrinho Poder ─ uma força sedutora (Paulus 2020), fala do “castelo” como uma fonte de poder sócio-político, assim como o “templo” como fonte de poder religioso (para além da casa e do mercado). Estes lugares de poder podem usar ou manipular diversas fontes, como matéria, origem, maioria, conhecimento, sentimentos, função, contactos, convicção. A pergunta é: até que ponto é que cada pessoa, independentemente do seu “status”, está disposta a envolver-se com o Mestre, a fim de que se viva a aventura da tensão entre a perenidade do que não passa (a Palavra de Deus) e a novidade da plenitude anunciada pelos gestos e obras que Jesus nos convida a imitar?
Na lectio divina para esta reflexão pensei muito sobre o nosso modo de lidar com as instituições sociais e os seus governantes e o nosso modo de fazer comunicação social. A sociedade e os seus atores costumam estar muito atentos à forma como a Igreja cumpre a sua missão. Como é que nós lidamos com isso? Como é que usamos as “fontes” de poder não para nos servirmos a nós próprios ou à nossa autorreferencialidade/autoproteção, mas para o serviço em favor dos mais desfavorecidos que são, em si mesmos, a causa do Reino de Deus?
Também poderíamos perguntar: como vemos a Tradição da Igreja? Incluímo-la na afirmação de Coelet “nada de novo debaixo do spol” ou como uma linguagem que se renova para que deixe cada vez mais e melhor deixe transparecer a Verdade que está para além do sol? Parece-me que quanto a Tradição da Igreja se deixa desviar por “detritos de religião” é porque está a ser mais política que missionária.
João Batista deu “negativa” ao modelo de Herodes e Jesus também. Sabêmo-lo pela forma como deram testemunho. Os cristãos de hoje não podem deixar de se envolver com a política e de se relacionar com os seus feitores. Porém, como toda a parceria é, por natureza, parcial, os que creem e servem Jesus não podem, no que dizem e no que fazem, deixar de apontar para o Reino que não tem a sua origem aqui na terra. Exemplos vivos de um testemunho “completo” foram os médicos Cosme e Damião que consultavam muitos pobres “pro bono”. Ou seja, usavam a sua profissão para servir segundo a lógica de Jesus. E isto também é vocação!
