navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Pr 21, 1-6. 10-13; Sl 118 (119), 1 e 27. 30 e 34. 35 e 44; Ev Lc 8, 19-21 ─ Na Diocese de Viseu, memória da Beata Rita Amada de Jesus

É significativo que na memória da Beata Rita Amada de Jesus se proclame o Evangelho onde se fala da verdadeira família de Jesus, que “são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põe em prática”. Este poderia ser o seu lema de “pastoral familiar” que constitui o carisma que recebeu.

Desde muito cedo, a sua vida de piedade a lança muito para além dos laços de sangue, num ímpeto missionário que se concretiza sobretudo em tirar mulheres da má vida e no acolhimento de crianças, através da Congregação de Jesus Maria e José, fundada por ela em 1880. A sua vida e obra provam-nos, como diz São Ambrósio, que “os laços das alma são mais sagrados que os dos corpos”.

O que São Leão diz de Nossa Senhora pode também dizer-se dela, parafraseando. Rita acolheu Jesus no seu coração antes de O traduzir em boas obras. De facto, não há incarnação sem Palavra. A escuta desta é o ponto de partida. Porém, não nos podemos ficar por palavras, sendo precisas as obras concretas que as manifestem.

Quanto as relações entre os seres humanos são geradas pela escuta da Palavra de Deus, acontecem coisas inéditas: é-se capaz de ir ao encontro de quem anda na má vida para convidar à reconciliação, é-se capaz de acolher os pobres na própria casa, é-se capaz de relativizar as relações de sangue para se ocupar o tempo em favor de desconhecidos.

Rodeava Jesus a multidão. Deveria ser muito densa, para que Maria e os parentes de Jesus não conseguissem facilmente aproximar-se d’Ele. Jesus deixava que se aproximassem, pois era tal a sua fome e miséria. Já os familiares d’Ele, pensando que estaria fora de Si, procuravam-n’O para O proteger, alimentar ou o fazer descansar. Mas Jesus alimentava-se da fome e sede dos que encontrava! Está aqui o preanúncio do alimento espiritual que é para nós a caridade pastoral, o alimento dos alimentos dos que servem Jesus. No tempo em que a Madre Rita teve de enviar as suas irmãs para o Brasil, ficando ela escondida na sua terra (Ribafeita), certamente alguém a terá visto como louca. No entanto, foi por esta loucura do amor pelos outros de expandiu além mar o seu projeto, apoiado na Família de Nazaré.

Jesus está a lançar as bases de uma nova família: a do Reino de Deus, baseada em laços da água do Batismo, não para se ter o monopólio da graça de Deus (como tendiam a fazer os parentes do Mestre), mas para a difundir onde ela é mais precisa, para a desmonopolizar e tornar acessível a todos! Pois, a escuta da Palavra de Deus só fica completa quando ela se traduz em gestos de cuidado para com todos.

Ser cristão significa viver no mistério de amor que Deus nos comunica como nova possibilidade de existência, lutando para que esse dom em nós se expanda de tal forma que possa ser princípio de existência para outros, sendo pontes do amor de Deus para os outros. Pensando no modelo da vocação a partir da Criação, podemos dar-nos conta que estamos no “ser”. Contudo, só a partir do modelo da Redenção é que a nossa vocação nos faz “existir” verdadeiramente, quer dizer ser fora de nós em direção a Deus e aos outros (a este respeito leia-se este post). É assim que somos convidados a crescer e a viver na consagração especial. De outra forma, seria um desperdício.