navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 1Cor 12, 12-14. 27-31a; Sl 99 (100), 2. 3. 4. 5 Ev Lc 7, 11-17; reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

A maioria das nossas celebrações da Eucaristia, pelo menos nos dias feriais, nas comunidades paroquiais, começa com a evocação dos defuntos (seguramente acima dos 90%). Por vezes, até até se desabafa que são tremendamente fúnebres, em detrimento da ação de graças que carateriza o mistério litúrgico, por celebrarmos Jesus Cristo morto e ressuscitado. Seja como for, em cada celebração pelos defuntos, de certa forma, evoca-se sempre este cruzar de dois tipos de procissão: a da morte e a da vida. O encontro de Jesus, dos seus discípulos e das multidões com aquela mãe e os que se compadeciam com a sua perda.

O encontro foi “à porta da cidade”. Hoje acontece nas imediações da Eucaristia, assim como no Sacramento da Unção dos Doentes, como também na Reconciliação quanto ao risco de vida espiritual/moral. Nem sempre olhamos a porta da Igreja como estando à porta da cidade, do século, à porto do tempo presente, da aldeia, da povoação, das famílias. A porta da entrada das igrejas é, também, porta de entrada na cidade e e vice-versa. Hoje, como naquele tempo, é às portas do coração de Cristo que acontece o milagre da vida. Para nós, no contexto dos incêndios, as “portas da cidade” são também os meios de comunicação social, ou às portas da TV, que nos permitem estar a par do que serve de motivo para a nossa oração, podendo celebrar hoje com orações na circunstância de calamidade.

O que é central neste Evangelho não é o milagre em si, mas o dom da plenitude universal que o Senhor quis revelar incluindo a ressurreição dos mortos. Jesus realizou prodígios que ultrapassam as possibilidades da terra. Os elementos fundamentais desta revelação são:

a) na compaixão há uma revelação de Deus em Jesus, pois “Deus visitou o seu Povo”. Deus revela-se como poder que acolhe o homem morto e o transforma;

b) com a ressurreição revela-se o sentido da vida que é o encontro com Deus e o encontro com a terra, na pessoa da mãe;

c) o sinal patente neste milagre é o de um Senhor Jesus que “há-de vir” e do triunfo da vida sobre a morte.

Da contemplação deste milagre decorre a transformação continua da nossa atitude: na nossa piedade diante do Deus da vida; na nossa ajuda junto dos nossos irmãos que sofrem. Seria interessante que, agora, após a Eucaristia cada um de nós ou todos em conjunto pudéssemos contactar alguém que sofreu com estes incêndios e manifestar-lhes que através da atenção às notícias e da celebração da Eucaristia, estivemos às portas do seu sofrimento, perguntando-lhes o que mais poderíamos fazer. Obviamente, podemos e devemos fazê-lo como cristãos diante de todas as tribulações e calamidades por que passam os semelhantes nossos irmãos.

Como é que se reza a fragilidade? A minha e a dos outros ─ É um pequenino texto de Mariana Guimarães, na Revista “Mensageiro” de Julho/2024, testemunhando que Deus nos olha a cada segundo como um Pai, sempre fielmente presente. Chama, também, de “câmaras ocultas e vivas”, cada uma com o seu rosto, os doentes, os familiares, os profissionais. E que Jesus nos chama a cuidar dos mais frágeis da sociedade, colo Ele fazia. E acrescenta:

Encontrar-te no meio do sofrimento e da fragilidade humana é um grande mistério, é avassaladora a dimensão sobrenatural que atinge perante a dimensão humana, porque nos damos conta que somos pouca coisa.

Os sumos sacerdotes do Antigo Testamento não se podiam aproximar de um cadáver. Nem pelo seu pai, nem pela sua mãe, pela impureza que poderia contrair. Mas para os cristãos, até a morte fica “vivificada” pela proximidade de Cristo, que é a Vida. Foi por isso, talvez, que São Francisco a pôde chamar de “irmã morte”. Cristo, com a sua presença, alivia as lágrimas e frena o cortejo da morte. As suas palavras e gestos, de que hoje participam os que O seguem e se configuram com Ele, têm o poder de ressuscitar (no grego egeírō, “despertar do sono da morte”).