navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Nm 21, 4b-9; Sl 77 (78), 1-2. 34-35. 36-37. 38; Flp 2, 6-11; Ev Jo 3, 13-17, na Festa da Exaltação da Santa Cruz

Nas três leituras desta Festa da Exaltação da Santa Cruz, encontramos um aspeto do mistério do amor de Deus que Se dignou oferecer o seu amado Filho não para a condenação, mas para a redenção da humanidade.

A primeiro leitura mostra-nos um ciclo que começa com a ambição reivindicadora do povo que está presente em toda a humanidade, logo após o nascimento, em que se impõe um certo sentimento de omnipotência em relação a tudo e a todos, diante da mais pequenina dificuldade. Isto traz sempre o “veneno” do ensimesmamento, da autocomiseração. Na melhor das hipóteses, na perceção dos sintomas destes “venenos”, surge a oportunidade da conversão e da cura. A simbologia presente na leitura mostra-nos que o problema não é o problema, mas o problema está em mim mesmo; sou eu mesmo, enquanto não acordar para uma nova forma de gerir a realidade. De facto, há muita força na determinação com que olhamos a realidade, para o bem e para o mal. Os latinistas sabem que vício e virtude têm a mesma raíz, que é vis, vis (= força).

O Evangelho mostra-nos Jesus, o Filho do homem que é sinal de contradição para muitos, logo na forma com que se apresenta e no que faz como “Filho do homem”: perdoa os pecados, cura, subiu ao céu e desceu do céu. Ele é causa de salvação para aqueles que n’Ele acreditam. E Ele não impõe condições para além do acreditar. A sua glória já está na cruz, onde Ele se “sentou”, assim com aqueles para os quais foi reservado estar ao seu lado: o bom e o mau ladrão. Nem a mãe dos filhos de Zebedeu, nem os mesmos, algum dia poderia imaginar que Jesus se referiria a este “trono de glória” de onde nos iria ser dado beber do cálice da salvação.

São Paulo, com a sua descrição do arrebatamento ou humilhação de Jesus (que no grego se diz kénosis), ajuda-nos a compreender que tipo de sacerdócio Jesus assume e nos convida a participar. É um sacerdócio novo e definitivo por assemelhação e não por separação. Não podia ser de outro modo, uma vez que Ele “tornou-Se semelhante aos homens”. Por separação eram os sumos sacerdotes que exerciam um poder político, já não iam ao templo de pedras, mas vigiavam as suas imediações e fronteiras. Foram estes que mataram Jesus. O Sumo Sacerdócio que é único em Cristo segue a linhagem dos patriarcas e dos profetas que, cada um a seu modo, serviu de mediador entre Deus e a humanidade. Agora, é Jesus Cristo o mediador definitivo, que não veio para condenar, mas para salvar a humanidade.

Ainda temos muito caminho a fazer para deixarmos que o Senhor nos purgue dos venenos de ambições desmedidas e clericalismos que impedem que contemplemos o mistério da cruz do Senhor em favor de toda a humanidade.