navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 1Cor 9, 16-19. 22b-27; Sl 83 (84), 3. 4. 5-6. 12 Ev Lc 6, 39-42, na memória de São João Crisóstomo, bispo e doutor da Igreja

Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, é uma obrigação que me foi imposta. Ai de mim se não anunciar o Evangelho!

E nós poderíamos reagir: ai de nós se anunciar o Evangelho é um “título de glória”! São Paulo sabia-o bem e pesava-lhe na pele: não podia vangloriar-se da pregação do Evangelho. Re(Per)cebia-o como obrigação em favor da salvação dos outros e sentia-o ser uma necessidade para a sua pobreza. Por isso, alimenta-se do Evangelho que anuncia em favor dos outros. Esta é a melhor definição de CARIDADE PASTORAL que conheço. É um alimento da espiritualidade do presbítero diocesano. Aliás é o alimento por excelência. O alimento dos alimentos. Corolário de outros significativos alimentos da mesma espiritualidade de qualquer presbítero, que são: a fraternidade sacramental e a incardinação.

À primeira vista, podemos ler “obrigação” na boca de São Paulo como falta de liberdade, uma vez que ele acrescenta “que me foi imposta”. Mas não. Está implícito que é a sua própria consciência/entendimento, a sua própria vontade e o seu próprio coração que escolhem esta orientação ou sentido. Franz Jalics (Encontrarse con Dios, 2023) defende que o testemunho pessoal é a forma mais sincera e autêntica de relacionamento interpessoal. E a “recompensa” é a vida plena que dando se recebe.

Costumo colocar diante dos futuros presbíteros, em formação, alguns dramas pessoais com que, mais tarde ou mais cedo no próprio ministério, se irão debater:

  1. Um deles trata de decidir com coragem, entre os “pingos” das normas, o que é que é remunerável ou não. Paulo distingue entre o que é “por iniciativa própria” e o que é “por mandato do Senhor”. Este a requerer gratuitidade, aquela a possibilitar o ganho material. Está implícita, aqui, a experiência de Paulo que ora teve de trabalhar para ganhar o seu próprio sustento, ora viveu só do ministério por estar completamente ao dispor e pela boa vontade dos fiéis. Hoje, na vida dos atuais padres nem sempre se percebe o que é remuneração justa (côngrua sustentação) no serviço, diante de tantas disparidades económicas e, porventura, tantos gastos para além do que seria desejável. Seja como for, há missões cuja remuneração entra em contradição com a Palavra de Deus. Não pode haver demissões no serviço generoso. E graças a Deus, há muitos bons exemplos.
  2. Outro drama é ligar com a própria fragilidade no meio do serviço. Não se achando dignos em exagero (não está mal a humildade, no equilíbrio psíquico, pois quem é digno de servir a Deus?), alguns presbíteros podem correr o risco de que a graça do Bom Pastor não esteja nelas e, por uma auto humilhação exagerada, enfraquecem ou demitem-se de um serviço entusiasmado. A graça de estado não desapareceu, embora seja preciso fortalecer o ânimo através da conversão pessoal e tomada de consciência de que o amor de Deus é para todos. O Papa João Paulo II, uma vez, fez-se confessar por um sacerdote super-auto-humilhado, para lhe manifestar a importância do seu ministério em favor dos mais frágeis. A quem se sente fraco ou inexperiente, o melhor que se pode exortar é que viva as exigências do sacramento da Ordem, pois elas mesmas são caminho de formação.
  3. O drama de dirigir o perno ou o leme entre a oração e a atividade pastoral. Não é sempre fácil, embora façamos a “renovação das promessas sacerdotais” anualmente. O melhor é escolher aproveitar o retiro, para naqueles dias de graça podermos individualmente “tirar” a trave dos próprios olhos, antes de virmos a ter que fazer correção fraterna durante o ano formativo ou pastoral, uma vez que esta é, também, uma atividade evangélica, porquanto o Senhor nos manda vigiar o próximo para que não caia num abismo.

O mais importante é fazermo-nos “tudo para todos”, para ganharmos o maior número, como Paulo. Também como João Crisóstomo, insigne bispo e doutor da Igreja. Este Apóstolo e este Padre da Igreja são recordados com muita força por causa do seu testemunho de entrega total. Vê-se que a sua forma de participar da caridade pastoral de Cristo implicou a sua conversão no entendimento e na sua vontade. Aconteceu com a conversão intelectual, moral e religiosa. Movidos por um amor ultramundano, atraíram outros através de uma reforma concreta da Igreja. Vê-se que escutaram bem e praticaram o Evangelho neste dia proclamado, em que o Senhor nos convida a fazer um trabalho contínuo sobre nós próprios, antes (na lógica, nem sempre possível no tempo) de querermos participar no serviço em favor do crescimento dos outros.

Requer-se a tal humildade de querer, ao menos (que já é mais), estar junto do Mestre para aprendermos a ser como Ele, não superiores a Ele, como, por vezes, nos leva o orgulho de uma conversão baseada no cumprimento de normas,que teimosamente nos leva a uma religião de comércio de graças. É o amor de Jesus que nos “catapulta” para um mais além das nossas forças, pois o serviço da caridade tem sempre a marca da Sua força.

Segundo Franz Jalics, acolhimento e compromisso para com os outros são elementos que podem conferir à relação interpessoal aquela autenticidade que possibilita o caminho para a relação com Deus. Assim, como nos sugeriu o Papa João Paulo II,

a caridade pastoral é o princípio interior, a virtude que orienta e anima a vida espiritual do presbítero, enquanto configurado a Cristo Cabeça e Pastor, é a caridade pastoral, participação da própria caridade pastoral de Cristo Jesus: dom gratuito do Espírito Santo, e ao mesmo tempo tarefa e apelo a uma resposta livre e responsável do sacerdote.

PDV, 23.

Com ela, imitamos o Pastor:

  • Que dá a vida;
  • Que vai ao encontro;
  • Que conhece intimamente as suas ovelhas;
  • Que procura a unidade;
  • Que procura o melhor para as suas ovelhas;
  • Que sente compaixão pelas suas ovelhas.