L 1 1Cor 8, 1b-7. 11-13; Sl 138 (139), 1-2 e 3b. 13-14ab. 23-24 Ev Lc 6, 27-38, na memória do Santíssimo Nome de Maria
“Como pode um ser humano descobrir a manifestação de Deus? Como descobrir Deus nos símbolos que O revelam? Porque cada vez mais cristãos percebem o divino fora da religião institucionalizada?” ─ São perguntas colocadas por Franz Jalics (Encontrar-se com Deus. Ed. a cargo de Pablo d’Ors, 2023) diante do paradoxo da visibilidade e invisibilidade de Deus. Uma pergunta pergunta que gostaria de assomar a estas é: como é que os discípulos de Jesus poderão ser facilitadores da perceção do Deus de Jesus Cristo?
Sucessivas vezes, Jesus provoca os seus discípulos pedindo-lhes o impossível: em vez de oferecer um grande banquete multiplica os pães, tirando este milagre de Si (cf. Mc 6,30-44), tem em Si mesmo a paz que serena as tempestades no mar da vida (cf. Mc 6,45-52), etc. No Evangelho de hoje, pede aos seus que amem os inimigos, deem a outra face…, a túnica a quem lhes levar a capa, a misericórdia, o não julgamento, que não condenem, que perdoem. Convida-os a viver na alta medida da outra margem para onde os envia: fazer aos outro conforme querem que lhes façam a eles.
Esta outra “face” também me faz lembrar não a da cara em relação à lição deste texto, mas a outra face da questão, que é: os inimigos não são sempre os outros e, algum dia, também um discípulo de Jesus (ainda não totalmente configurado com Ele) precisará de que seja amado, misericordiado, beneficiado, considerado sem julgamento ou condenação. Esta “troca de rostos” faz-me recordar o flagelo da pedofilia, em particular, e os abusos de poder e de consciência, em geral, em que os abusados eram “malditos” e os abusadores eram encobertos de “bênção”.
Há, no discurso de Jesus, de forma mais ou menos nítida duas ordens de amor: uma menor de que até os pecadores são capazes (amar os que nos amam, fazer à espera de recompensa, etc.) e a outra maior que só podemos ativar pela caridade em que participamos de Cristo. Como sabemos, também os demónios conhecem a Cristo, mas não sabem que a verdadeira identidade d’Ele é a caridade que vem do Pai (cf. Mc 5,1-20). E Jesus quer livrar-nos do pecado, precisamente, para sermos capazes de amar como Ele, a todos.
Franz Jalics, na sua obra Escutar para ser, a dimensão contemplativa das relações interpessoais (2022), diz que “a nossa relação com os outros determina a nossa relação com Deus e vice-versa. Os dois tipos de relação decorrem sempre em paralelo e são uma para a outro banco de prova. Quem alcança uma atitude contemplativa no seu trato com Deus, também será compreensivo no trato com as pessoas, abrindo-se a elas com confiança e paz. O contrário também é certo: quem não é capaz de entender os seus semelhantes também não compreenderá Deus”. Um dos princípios da dimensão contemplativa das relações interpessoais que propõe é o da proporcionalidade, ou seja, se queremos saber como é a nossa relação com Deus, olhemos a relação que temos com os outros: se amamos uma pessoa, queremos bem a umas dez, toleramos umas vinte, somos indiferentes a umas sessenta, e a uma ou outra não podemos nem sequer ver, também será assim a nossa relação com Deus, em cujas manifestações amamos 1%, queremos bem 10%, toleramos 20%, somos indiferentes 60% e há revelações que nem sequer queremos ver.
Por vezes, ouvimos falar somente do “ordo amoris” referido à pureza espiritual e ao ordenamento dos afetos. No entanto, ainda que isso faça parte, pôr em ordem a própria afetividade implica tender àquele “magis” a que o Mestre nos convida a atuar para sermos filhos do Altíssimo. Nunca tender a amar os inimigos faz-nos correr o risco de sermos, também, inimigos uns dos outros, “degladiando-nos” na competição sobre quem é o maior.
A liturgia de hoje convida-nos a crer que a invocação do Santíssimo Nome de Maria aconteceu pela primeira vez na celebração de ação de graças por vitórias militares sem batalhas, invocada para proteção dos fiéis. O inefável amor da Mãe que se invoca hoje é o da Mãe do Redentor, que Paulo garante ter morrido para com todos, incluindo os fracos, diante de quem somos chamados a dar testemunho de um amor sem medida. Para amor de “baixo preço” já basta naquelas bandeiras inúteis que se empunham à mistura com uma devoção pobre, querendo agradar aos homens antes que a Deus. O caminho da virtude implica a humildade, que se pode alcançar com a pobreza e o desprezo aos olhos do mundo.

