navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 35, 4-7a; Sl 145 (146), 7. 8-9a. 9bc-10; L 2 Tg 2, 1-5; Ev Mc 7, 31-37, no XXIII Domingo do Tempo Comum

Amedeo Cencini diz que para haver cultura são precisos três elementos essenciais: mentalidade, sensibilidade e pedagogia. A confluência destas dimensões, à primeira vista, pode não  vir a propósito desta liturgia da Palavra, mas a cura do surdo-mudo não tem que ver somente com as limitações físicas… Como ouvimos na adminição, proliferavam por aquela região da Decápole o paganismo que mais não é expressão da ausência do Deus de Amor.

Jesus deixa a região de Tiro e vai para o mar da Galileia, passando pela Decápole, que era um lugar de pagãos. É significativa esta descrição geográfica, tendo em conta a cura do surdo-mudo que lhe pedem para realizar junto ao mar da Galileia. O “paganismo” ─ que já é fruto de tudo o que impede de ouvir a Palavra de Deus e de se deixar tocar pelos gestos de Jesus ─ por sua vez, gera opressão, marginalizando os mais vulneráveis da sociedade, tirando-lhes a capacidade de estar informados e de ter vez e voz quanto ao bem comum. Esse paganismo como estrutura de divisão da humanidade entre ricos e pobres é muito antigo, pois já Isaías profetizava contra ele. Jesus confrontou-se com essa estrutura que, inclusivamente, pairava entre as instâncias religiosas e o povo. Hoje, também o podemos ver na sociedade da tecnologia e do consumo, entre os algoritmos das redes sociais e a solidão em que vivem muitos dos que ali estão imersos sem um juízo crítico básico e necessário (nunca como hoje se comunica tanto e, apesar disso, se está tão só). O anúncio profético é o de que o Senhor nos virá libertar dessa opressão que não nos deixa ouvir o que devemos ouvir e não nos deixa falar o que devemos dizer, para termos vez no processo da salvação.

As palavras e os gestos que escutamos no Evangelho fazem-nos regressar à memória da Criação. Significam a nova criação que Jesus veio realizar com a sua encarnação, a sua vida, as palavras e os gestos do seu ministério público, a sua paixão, morte e ressurreição. É nítido para quem faz uma leitura orante (lectio divina) da Palavra deste domingo a aproximação da cura do homem surdo mudo ao Sacramento do Batismo que todos os que frequentamos a assembleia litúrgica recebemos. É curioso que já o facto de estarmos aqui apartados da multidão nos aproxima do gesto de Jesus afastar o surdo-mudo para o curar. Quando nos apartamos da sociedade para celebrar: isso é consequência do Batismo e é para o alimentar no sentido daquela vida para a qual fomos criados. Alguns dos gestos de Jesus ali presentes já tiveram lugar nas formas rituais mais antigas (como humedecer o dedo e colocá-lo na boca e nos ouvidos; ou a colocação da pedra de sal na língua). Hoje em dia, está no ritual do Batismo o gesto do Effathá, com as palavras do que o administra: “O Senhor, que fez ouvir os surdos e falar os mudos, te dê a graça de em breve poderes ouvir a palavra de Deus e professares a fé, para louvor e glória de Deus Pai”.

Há um silêncio que é bom: o que nos leva a afastarmo-nos da sociedade hiperestimulada que nos impede de escutar a Palavra de Deus e de participar nos seus gestos sacramentais. E há um silêncio que é muito mau: aquele que nos oprime, não nos deixando ter a vez de ser escutados e a voz para dizermos o que pensamos. O processo sinodal da Igreja veio ser resposta para isso, uma vez que os fiéis, por exemplo, nas assembleias litúrgicas só são chamados a dizer “Ámen”. E está bem, porque o dizemos todos a Jesus que é Vinho, Verdade e Vida. Mas a Igreja não é feita só de Eucaristia; também é feita de Profecia e Testemunho. Infelizmente, as comunidades têm poucos momentos aquém ou além da Eucaristia para catequese de adultos e partilha de ideias, que levem a uma concretização prática da Verdade na Caridade.

Jesus, num dos últimos domingos, citou o profeta Isaías para confrontar a hipocrisia dos escribas e fariseus, que obrigava as pessoas a fixar-se em formalismos desatualizados e desnecessários. Hoje, a liturgia cita Isaías para prefigurar Jesus, Aquele que nos vem libertar de tudo o que nos oprime.

A liturgia de hoje é tremendamente sacramental, concretamente acerca do Batismo. É Cristo Aquele por Quem podemos ser salvos. E o Batismo é o enxerto na vida d’Ele. Uma vez aqui reunidos na assembleia litúrgica para que nos sejam abertos os ouvidos e a boca, não tenhamos medo de, ao sair daqui, atravessar a sociedade em que vivemos para profetizarmos. Deus não faz aceção de pessoas e a nossa assembleia litúrgica ainda não está completa. É um culto público, aberto a quem quiser vir a partir de aqui ajudar a construir a paz.

O lema do próximo Congresso Eucarístico Internacional em Quito-Equador é “Fraternidade para curar o mundo. “Todos vós sois irmãos” (Mt 23,8). Uma cultura eucarística não é uma cultura do formalismo fechado a um grupo de elite ou de uma oligarquia à volta do padre, mas a cultura de uma comunidade em que o ser humano, seja ele qual for com quem Jesus Se identifica, é trazido para o centro das atenções.