Lc 7,11-17 (pág. 319); Lc 23,33.39-43 (pág. 321); Jo 14,1-6 (pág. 333); Jo 17,17,24-26 (pág. 334)
Penso que a Palavra de Deus proclamada nesta ocasião de exéquias por um ente querido que partiu e na compaixão para com quem sofre o luto, pode ser traduzida pelo testemunho da uma escritora francesa e multipremiada Christiane Singer soube que tinha apenas seis meses de vida, iniciou a escrita da sua derradeira obra: “Últimos fragmentos de uma longa viagem”. Trata-se de uma reflexão comovente sobre a sua morte próxima (que acabaria por ocorrer a 4 de abril de 2007). Eis o testemunho:
Estou a falar-vos do fundo da minha cama… Tenho ainda muita dificuldade em falar sobre isto a sangue frio. Quero apenas evocá-lo. Porque foi este sofrimento que me abrasou e me aplainou até à transparência. Calcinada, até à última célula. E talvez seja por isso que acabei por chegar ao inconcebível. Houve uma noite em particular em que me arrastou para um espaço desconhecido.
O que é chocante é que, quando tudo está destruído, quando não resta nada, nada mesmo, não é a morte e o vazio que ficam, como se pensa. De modo algum. Eu juro-vos. Quando não resta nada, só há Amor. Só há Amor. Todas as barragens se rompem. É o afogamento, é a imersão. O amor não é um sentimento. É a própria substância da criação. E é para dar testemunho disso que acabo por sair, porque é preciso sair para falar disso. Como o nadador que sai do oceano e ainda está a pingar água! É neste estado anfíbio que vos falo. Não podem simultaneamente permanecer nesse estado, nessa unidade onde toda a separação é abolida, e voltar a testemunhá-la entre os seus semelhantes.
É preciso escolher. E creio que, apesar de tudo, a minha vocação mais profunda, enquanto posso, a minha vocação mais profunda é regressar aos meus semelhantes. Até agora, acreditava que o amor era ligação, que nos ligava uns aos outros. Mas é muito mais do que isso! Nem sequer é preciso estarmos ligados: estamos dentro uns dos outros. Esse é o mistério. Essa é a maior vertigem. No fundo, só vim trazer-vos esta boa notícia: do outro lado do pior está o Amor. Na verdade, não há nada a temer. Sim, é essa a boa notícia que vos trago.
São João da Cruz dizia: “No entardecer da vida seremos julgados pelo amor”. É isso: na margem onde este(a) nosso(ã) irmão(ã) já se encontra O que existe/Quem nos espera é Aquele que é Amor. Deixemo-nos atrair por este Amor todos os dias, traduzindo essa experiência em gestos de caridade uns para com os outros. O Amor que nos salva tem essas duas faces inseparáveis: é um Amor recebido e uma Amor partilhado.
