navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Domingo XXI do Tempo Comum (B) ─ L 1 Js 24,1-2a.15-17.18b; Sl 33 (34),2-3.16-17.18-19.20-21.22-23; L 2 Ef 5, 21-32; Ev Jo 6, 60-69

Andámos o mês de agosto todo a proclamar o capítulo 6º do Evangelho segundo João ─ sobre o Pão da Vida ─ em que Jesus passa, talvez em duas horas, do ser coroado rei ao ser abandonado. O que levava as multidões a querer coroar Jesus eram as suas curas milagrosas e a multiplicação de pão que nunca mais acabava. Parece que a pedagogia de Jesus foi cativar as pessoas saciando as suas necessidades; quando passa à explicação de quem Ele é e do caminho que veio abrir, quase todos o abandonam. Algum dia teria de vir o apelo à liberdade de cada um, diante das contrariedades. Na verdade, ser livre não é ter sempre diante de nós circunstâncias fáceis, que não agucem a nossa capacidade de escolher. A verdadeira liberdade não é a escolha entre o bem e o mal, mas a escolha entre vários bens. E no caminho de Jesus é possível a conciliação de coisas fáceis e difíceis. Quem só gosta de coisas fáceis, não é capaz de exercer a liberdade de O seguir.

Por exemplo, o caminho do Matrimónio dá aos cônjuges a oportunidade de conciliar cuidado do outro e submissão ao outro, que são duas faces constitutivas do verdadeiro amor. Para o viver, eles precisam de ter uma mente aberta ao outro e um coração livre para submeter a sua vida. O mesmo acontece com o caminho do discipulado, atrás do Mestre. Deus é assim: dá vida e cuida numa primeira parte do caminho, mas depois, para nos fazer crescer, dá-nos um pão maior/mais “duro de roer” para nos ensinar a ser livres, a fazer escolhas adultas. Numa primeira fase da nossa vida ou história de fé, dá-nos a comida pronta, mas depois, uma vez crescidos, “dá-nos a cana e ensina-nos a pescar”…

Uma vez abandonado pela maioria, Jesus vira-se para os seus discípulos, perguntando-lhes: “E vós também quereis ir embora?” É a hora da prova de fé. É a hora de dar o salto entre a infância espiritual e uma entrega adulta, que tende a ser perseverante independentemente das circunstâncias. Sabemos o que Pedro Lhe responde: “A quem iremos, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna”. Também na Igreja de hoje é assim: diante da concupiscência (prazer) dos resultados/sucessos em que, por vezes, nos apegamos, o Senhor, por um bem maior, é capaz de recomeçar tudo do zero (Ermes Ronchi). Para Jesus, os números ou a quantidade dos que O seguem jamais são um critério evangélico. O que Lhe interessa é a qualidade dos que seguem com Ele o caminho da missão. Jesus está a “peneirar” as sementes boas para o futuro da Igreja. E se nós, hoje, O levamos a sério, daqui a mais 500 ou 100 anos pode se que ainda haja fé sobre esta terra, através da transmissão da mesma fé.

Porque é que muitos na Igreja estão a olhar com desdém o caminho sinodal? É porque é errado? Então a Igreja representaria dois mil anos de erro. Não será mais porque a relação de cuidado e de submissão aos outros é difícil e trabalhosa? Não será porque alguns crentes gostam mais de que lhes façam a papinha toda em vez que se ajudarem a pensar pela própria cabeça? Não será porque ser livres, exercendo a escolha entre vários bens, é difícil e tem de ser feita pela própria pessoa, sem o abuso de ser substituída? Está claro que qualquer abuso de poder começa no abuso espiritual de substituição da pessoa.

Pedro poderia ter regressado a Betsaida, ao seu pequeno negócio de pesca, com a sua pequena barca, mas aquilo seria só sobreviver, num ciclo pobre de pescar, comer e dormir. Não seria viver, não seria vida plena. Não existe barca que valha ou abarque a eternidade do coração (Ermes Ronchi). Por isso é que a resposta de Pedro é bela e modelo para nós, batizados e para quem queira seguir Jesus. Pedro sabe que Deus tem palavras que abrem caminhos novos, Ele não é mudo. São palavras que nos abrem a mente e fazem com que o coração não esteja dividido. É a Sua verdade que nos torna livres.

A pergunta que nos é lançada hoje é esta, para que não creiamos à metade: o relacionarmo-nos com Jesus dá-nos ou exige-nos um pouco mais de vida? E só se trata de ir a Ele e a mais ninguém (não ao padre X ou o padre Y, como se viu agora em comentários à publicação das nomeações do Sr. Bispo. Lamentável… Quem segue só aquele padre preferido não segue Jesus). Mas não vamos sozinhos. Vamos em comunidade… Ele faz viva a nossa vida. A experiência da família e da comunidade cristã (paróquia) é a de que aqui podemos fazer a experiência espiritual cristã como algo descritivo, diante da atenção confiante de todos os seus elementos.

Há poucos dias, o Santo Padre Papa Francisco publicou uma Carta sobre o papel da literatura na educação. No n.º 14 lê-se:

Mais do que o ateísmo, o desafio que hoje se nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne». Portanto, a urgente tarefa de anunciar o Evangelho no nosso tempo exige, dos fiéis e dos sacerdotes em particular, o compromisso que permita a cada homem encontrar-se com um Jesus Cristo feito carne, feito homem, feito história. Todos devemos estar atentos para nunca perder de vista a “carne” de Jesus Cristo: aquela carne feita de paixões, emoções, sentimentos, histórias concretas, de mãos que tocam e curam, de olhares que libertam e encorajam, de hospitalidade, perdão, indignação, coragem, intrepidez; numa palavra, de amor.