navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ez 34, 1-11; Sl 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6; Ev Mt 20, 1-16a

Não podemos partir do pressuposto que a discussão sobre quem ganha mais ou menos a graça de Deus (ou outros dividendos deste mundo) por se esforçar mais ou menos que os outros não exista nos dias de hoje por parte dos discípulos-missionários de Jesus Cristo. Ao nível das consciências (interiormente) e, de forma mais ou menos mascarada, na competitividade umas vezes chamada de ascese espiritual, outras vezes intitulada de empreendedorismo pastoral, não é fácil para a condição humana escapar ao ciúme quanto ao prémio que cada um se auto-atribui diante da sua auto-referencialidade e auto-merecimento, mesmo sabendo teoricamente que o amor proclamado pelo Evangelho que se é chamado a anunciar é sem medida, que contém uma ética que convida a dar um valor sem medida ao seu destinatário (Deus e o outro, com quem Ele se identifica). De facto, o nosso exame de consciência a este respeito deve estar sempre ativo. É inevitável que uma certa luta de classes sociais influencie a comparação entre pessoas quanto ao acesso e o viver segundo a graça de Deus, aquém ou além de um verdadeiro caminhar afetivo e eficiente (“que dê frutos”) que um cristão é chamado a trilhar.

Por isso, estar dentro e estar fora do caminho cristão não é um mero de resultado de ações ou ritos exteriores, mas sobretudo um estar centrado no horizonte aonde o Evangelho nos quer levar a todos: o Reino de Deus. Este “denário” é invisível para não ser manipulado ou quantificado de qualquer maneira, e é indivisível, sendo que o Senhor o faz ver/experimentar, de uma forma concreta, a quem dá a sua vida por ele. Nem que seja por um “copo de água” que se oferece a quem tem sede!

Uma questão que, na nova evangelização, hoje poderíamos colocar diante das comunidades e das pessoas é: que equilíbrio, para o bem das comunidades, entre profissões rentáveis para a vida sustentável neste mundo terreno e vocações rentáveis para a sustentabilidade da vida mais além? Ou, considerando esse mesmo equilíbrio na vida e para o bem de uma pessoa, que equilíbrio entre a vida profissional rentável materialmente e a vocação rentável gratuitamente para o bem da sua alma e para o bem dos outros?

Seja a que hora do “dia” for ─ considerando não só o tempo que se dedica, mas também as idades de quem se dedica ─ somos todos convidados a trabalhar para o mesmo projeto. Não há “projetos”, mas um só: o de Jesus Cristo. É Ele o modelo profético de Pastor que nos apascenta a todos, com uma misericórdia desproporcional às circunstâncias e comportamentos que levem a humanidade a andar tresmalhada. Um Pastor que perde a vida para que os outros ─ seja quem for ─ a ganhem.

Querer fazer cálculos humanos quanto aos frutos da nossa dedicação ao Senhor é “apascentarmo-nos” a nós mesmos. Esta atitude faz-me lembrar alguns jovens que acabam um curso de três anos e que, na primeira entrevista de emprego, a primeira pergunta que fazem é a de quanto vão ganhar. Quem se dá ao Senhor, não pede nada em troca, a não ser o crescimento que se obtém da docilidade à Palavra e da obediência às exigências do serviço aos outros.

O final da parábola ─ “Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?” ─ provoca-me um pensamento que é: a nossa forma de servir o Senhor não é só influenciada pelos nossos desejos de ter isto ou aquilo, mas também pela imagem de Deus que temos no coração. A este respeito convido a ler este artigo, que garante que não é a fé que está em crise, uma vez que uma centelha da mesma se encontra em cada ser humano. O que estará em crise é a capacidade de voltar a lavrar o caminho para que dele brotem sempre coisas novas e velhas, sempre úteis para que as pessoas sejam por ele levadas ao horizonte a que se propõe. Portanto, há aqui uma imagem do ser humano e uma imagem de Deus a “limpar” constantemente, para que o diálogo entre ambos aconteça no encontro, para o qual o encontro com Jesus é paradigmático.

“ Dentro de nós há um rei cujo último saber é não reinar. O seu trono é tão nada que nunca será destronado. Um monarca sem castelo nem garupa que apenas do ingovernável se ocupa: neste mundo só entende quem ama. E quem não ama não sabe quem é. Como este soberano cuja coroa é tão leve que apenas lhe dá licença para um sonho breve. Soberano tão esquecido de toda a lei que no fim, confessa: _ fui rei, _ apenas quando errei.”_

Mia Couto. In: Vagas e Lumes.