navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

DOMINGO XX DO TEMPO COMUM (B) ─ L 1 Pr 9, 1-6; Sl 33 (34), 2-3. 10-11. 12-13. 14-15 L 2 Ef 5, 15-20; Ev Jo 6, 51-58

No n.º 236 da Encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco escreve:

A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a manifestar-se de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura. No apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria. Não o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontrá-Lo a Ele no nosso próprio mundo. Na Eucaristia, já está realizada a plenitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos dá graças a Deus. Com efeito a Eucaristia é, por si mesma, um ato de amor cósmico. «Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja da aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo». A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo, saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico, «a criação propende para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador». Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira.

Nunca a Sabedoria de Deus desceu tão baixo que ao ponto de dizer em Jesus “comei a minha carne, a vida do mundo”. Prefigurado no Livro dos Provérbios, o anfitrião transforma-se no alimento.

Alguns dos aspetos que mais me preocupam em relação à celebração da Eucaristia são:

a) A sua banalização, por ser celebrada muitas vezes sem um equilíbrio dos elementos que a compõem, como cânticos, adornos, dinâmicas, etc., com a que levem ao desfavorecimento da atenção para com os seus aspetos essenciais, como a proclamação da Palavra e a oração eucarística. Por vezes, até o excesso de ritos e vénias pode distrair do central. Dou um exemplo: depois da comunhão, muitos “salamaleques” externos declaram que a pessoa que comungou Jesus se esqueceu que Ele está dentro e não já só fora. É como se o comungante quisesse prender o Senhor que tem dentro e chamar a atenção ─ ainda que por um piedoso rigor ritual ─ dos outros. Estar em comunhão com Jesus implica, claro, estar com os outros, o que implica NÃO uma diferenciação ritual, mas um saber estar com semelhança e simplicidade. Já que Jesus quis fazer-Se semelhante a nós, para que nós nos tornarmos semelhantes a Ele.

b) A sua instrumentalização por ser, frequentemente, usada para esta ou aquela ocasião, pondo-se ao serviço de eventos que não são estritamente comunitários, mas de pessoas ou de grupos que nem sempre frequentam a comunidade. A falta de fé no sacramento costuma ser a causa de descentralizações. É por isso que vamos vendo celebrações da Eucaristia cada vez mais vazias da comunidade; e vamos vendo cada vez mais comunidades vazias da comunhão entre grupos, associações, obras e movimentos. Não quer dizer que não se possa celebrar ─ como está previsto no Missal Romano as orações para Missas votivas e em diversas situações e necessidades da vida dos fiéis ─, Eucaristias com famílias e grupos particulares. Sim, pode celebrar-se. Mas não é só porque “é bonito” ou por que quero que seja “a minha Missa”. A Liturgia é sempre culto público, de portas abertas para quem quer assomar-se à celebração do mistério pascal. A Eucaristia circunstanciada ao Matrimónio, aos funerais, aos aniversários, a encontros de grupos especiais, teriam de pensar-se sempre dentro de um projeto comunitário, de formação e de vivência frutífera do sacramento. Se não houver projeto comunitário que tenha como centro a Eucaristia, como celebração pública do culto, pode acontecer que “os que mais berram” são mais “saciados” e os marginalizados ficarão sempre ao longe… Outro sinal não muito positivo é a falta de vocações presbiterais, para que a Eucaristia nunca falte, sobretudo a comunidades que passam muito tempo à espera dela.

Fazia-nos bem ter mais fome da Eucaristia ─ não intimista, mas da comunhão e unidade que Jesus veio realizar e pediu ao Pai nos últimos dias da sua vida terrena ─, celebrando-a menos vezes, antecipando-a com muita formação, para que haja uma verdadeira fé no sacramento e tendo-se tempo para anunciar esta divina Presença a muitos mais. A Eucaristia é a continuação da incarnação ao longo do tempo. A vida eterna depende dela, mas ela depende da fé. São Bernardo de Claraval lembrou, um dia, que Cristo humanizou-se durante 30 anos, pregou durante 3 anos e instituiu os sacramentos em 3 dias. Diante desta provocação pergunto se a Eucaristia que celebramos semanalmente serve para humanizarmos mais o mundo através da evangelização. O sacramentalismo pode levar-nos por um caminho que Cristo não abriu nem trilhou. Aprendemos com Albert Vanhoye (Sacerdotes antiguos, sacerdotes nuevo: según el nuevo testamento. 5ª Ed. Salamanca: Sígueme, 2006) que Cristo é Sumo Sacerdote na linha dos profetas do antigo testamento e não na linha do sacerdócio real-político do seu tempo. O sacerdócio do tempo de Jesus degenerou num poder que marginalizava e matava, o profetismo manteve-se intacto através do amor de Jesus que curava e salvava a humanidade decaída. Também hoje a celebração dos sacramentos precisa de uma boa dose de aprofundamento da fé a partir do que disseram os profetas de outros tempos e o que dizem os profetas de hoje. Não foi à toa, mas foi arriscada, a nota de rodapé n.º 351que o Papa Francisco deixou na exortação apostólica “A alegria do Amor”, assinalando a Eucaristia não como «um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos». De facto o sacramentalismo legalista afastou muitas pessoas das fontes da graça deixadas por Cristo na Igreja… Requer-se uma nova pedagogia para aproximarmos as pessoas dessas fontes. Isso requer que não só as pessoas, mas também a Igreja se coloquem no ponto de encontro do diálogo e da formação.

O Beato Carlo Acutis, a respeito de quem o Papa Francisco está prestes a marcar a sua canonização tinha a Eucaristia como “autoestrada” para o Céu e não queria esta fonte só para si. Pela Internet, utilizando os seus dotes informáticos, era um grande apóstolo da Eucaristia.

Uma nova pedagogia, assim como alimentar a fé no Sacramento da Eucaristia é a missão de um Congresso Eucarístico Nacional como o que aconteceu em Braga (Partilhar o Pão, Alimentar a Esperança) ou Internacional como o que acontecerá em Quito (Fraternidade para curar o mundo).

Jesus apresenta-se como o pão vivo que desceu do céu para que quem d’Ele comer possa viver eternamente. E acrescenta “este pão é a minha carne que Eu darei pela vida do mundo”; e diz o mesmo em relação ao seu “sangue”. A vida eterna está ali… na carne e no sangue de Jesus. E escolheu estes elementos da criação para Se fazer presente a partir de qualquer casa… Para que todos pudessem ter acesso à vida eterna, para que possamos permanecer n’Ele, para ressuscitarmos, para vivermos por Ele. É esta a “ementa” da vida no Reino: é a incarnação do Espírito de Jesus em cada pessoa crente! Por isso, não se trata da multiplicação de vezes em que vamos à Eucaristia, mas mais se este alimento divino que nela recebemos é assimilado pela minha forma de vida.

Os judeus perguntam, escandalizados, “como é que…?” Jesus não lhes responde diretamente ao “como”, mas insiste que alimentarmo-nos d’Ele permite-nos estar n’Ele e, assim, obtermos a vida eterna. Trata-se de nos deixarmos transformar naquele que comemos. Passaremos a olhar como Jesus olha, a dizer o que Jesus diz, a gostar do que Jesus gosta, a agir como Jesus age.

Graças a Deus, há muitas comunidades a preparar bem e a celebrar bem a Eucaristia. Há, também, padres corajosos a propor que certos momentos sejam vividos com a liturgia da Palavra, não multiplicando as celebrações para além do que é canonicamente permitido (binar nos dias de semana e trinar ao domingo; cf. Direito Canónico, p. 344) e partilhando-as com outros ministros dentro que cada um pode e deve fazer, incluindo a distribuição da Sagrada Comunhão que é Jesus eucarístico. Há, também, experiências felizes de favorecer a continuidade do mistério que se celebrou na vivência do quotidiano semanal, através de ações ou gestos que traduzam na vida o que se celebra na Eucaristia. Há paróquias que conseguem muito bem o equilíbrio entre os outros sacramentos e circunstâncias celebrados dentro da celebração comunitária da Eucaristia ao Domingo, e momentos à parte mas sempre assinalados pelo toque dos sinos (onde os há) ou um meio de comunicação social paroquial. O objetivo de uma paróquia (e de uma diocese) é ser família de famílias. A Eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia.

Fica sabendo, ó cristão, que mais se merece assistir devotamente uma só Missa (na igreja), do que distribuir todas as riquezas aos pobres e peregrinar por toda a Terra.

─ São Bernardo de Claraval