navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Gal 3,26-28; Jo 3,1-6, na celebração do Batismo

O evangelista João conta-nos que Nicodemos, sendo já velho, aproxima-se de Jesus, de noite, talvez por vergonha do que os seus contemporâneos lhe pudessem dizer. Ele, como se conta, já crê em Jesus, mas só se importa com os milagres, e não tanto pela sua origem.

É, então, que Jesus o provoca dizendo que “quem não nascer de novo não pode ver o reino de Deus”. Nicodemos fica surpreendido, pois já é velho e não imagina como será possível nascer novamente. Ele pensava só no nascimento através da carne. E, de facto, ninguém poderá voltar para o seio da sua mãe para voltar a nascer segundo a carne.

Há, em Jesus, um novo nascimento “segundo a água e o Espírito”, para, não só podermos ver, mas também podermos entrar no reino de Deus! Este é um verdadeiro upgrade que pode acontecer na vida de uma pessoa, seja ela já velha ou ainda seja uma pequenina criança. Mas, notemos como nos inícios da vida de uma criança acontece uma série de upgrades: as modalidades da alimentação cada vez mais independentes, a forma de visualizar no espaço até ao conseguir andar sozinha, a capacidade de explorar o mundo à sua volta (que vai do aprender a descer e subir escadas e abrir portas e gavetas, etc.) e a socialização desde os colos aos abraços, dentro e fora de casa. Como não poderia ser, também, a aprendizagem dos sinais da fé, que vão desde um simples sinal da cruz na testa, a água que cai sobre a cabeça, a vela acesa, a família reunida para rezar…?

Por vezes, diz-se que é mais vantajoso que as crianças cresçam e, depois, decidam o que querem fazer quanto à possibilidade de celebrar e viver o Batismo. Não é condenável esta posição, tanto que a Igreja Católica tem o RICA, que é o Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos ─ que está preparado para acompanhar os adultos na sua preparação, celebração e vivência do Batismo e que, infelizmente, está muito pousado nas estantes dos padres. Quando uma pequena criança recebe o Batismo que é pedido pelos seus pais à Igreja, parece-me ela ter vantagem sobre uma pessoa que seja mais velha: tem mais tempo para ver primeiro o que é o Reino de Deus, testemunhado pelos seus pais e padrinhos, no lar e na paróquia, para poder decidir se há de, livremente, entrar nele ou não.

Estamos a falar do Reino da verdade, da fraternidade, do amor, da justiça e da paz!

É claro que um idoso, que já viveu e viu muitas coisas, quando o pede o Batismo, em princípio, já sabe o que pede e decide-se por si próprio, já não precisando da autoridade dos seus pais. Porém, no Evangelho, as palavras de Jesus são claras: “quem não nascer de novo “não pode ver… não pode entrar”. Viver o Batismo a sério (não só celebrá-lo numa data e ter uma ata) faz-nos ver coisas que sem ele não veríamos. A “água e o Espírito” derramados sobre nós dão-nos a vida em Cristo: fazem-nos olhar como Ele olha, gostar do que Ele gosta, dizer o que Ele diz, fazer como Ele faz, etc. Portanto, pedir e celebrar o Batismo de uma criança implica dos pais que a apresentam fazê-la contemplar e experimentar tudo o que em relação à fé ela tem direito: enquanto pequenina os afetos, quando crescer a catequese, na adolescência as aventuras da fé, na juventude a decisão vocacional.

E, como Deus não faz aceção de pessoas, a graça do Batismo permite-nos ser solidários com todos, uma vez que, segundo nos garante São Paulo, não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; todos vós sois um só em Cristo Jesus. O Batismo dá-nos uma sensibilidade, não só uma mentalidade. Queira cada um de nós agarrar, como filho de Deus, a mão do Pai, deixando-nos que Ele nos conduza por Jesus no Espírito Santo, por onde Ele quiser para o seu Reino glorioso.