navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA – SOLENIDADE ─ L 1 Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sl 44 (45), 10. 11. 12. 16
L 2 1Cor 15, 20-27; Ev Lc 1, 39-56

Hoje estamos unidos à nossa Igreja Catedral ou Sé de Viseu, igreja-mãe de toda a diocese, onde está como titular a Virgem Maria, Senhora do Altar-Mor. É a invocação deste dia.

O que significa a Assunção da Virgem Santa Maria? Esta é a forma como a Igreja trata da passagem de Maria para a glória do Céu. Nas Igrejas do Oriente também se celebra esta passagem, mas com o nome de “Dormição”. O que quer dizer? Citando o Padre João António Pinheiro Teixeira, quer dizer que Nossa Senhora também morreu, se não não teria ressuscitado (como confirma Severo de Antioquia). Como Jesus também morreu, para partilhar a ressurreição de Cristo, Maria teve que primeiro compartilhar a Sua morte. Assim o confirmou São João Paulo II em 1997, afirmando que Maria experimentou a morte natural antes de ser elevada ao Céu. Para o Novo Testamento ser omisso quanto à morte de Maria, é porque esta deve ter ocorrido de forma natural, mas num ambiente totalmente sobrenatural. São Francisco de Sales defende que a morte de Maria constituiu um transporte de amor.

Nesta Solenidade escutamos o Evangelho da Visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel. O Cardeal D. Tolentino, na ocasião em que os jovens de Portugal foram a Roma buscar a Cruz das JMJ e o ícone de Nossa Senhora “Salus Popouli Romani”, proferiu uma catequese riquíssima, partindo do lema contido nesta passagem do Evangelho: «Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1,39).

Este nosso grande biblista aprofunda que “a decisão que Maria tomou de levantar-se e meter-se a caminho para alcançar a casa de Zacarias e Isabel apercebemo-nos que esta tem o seu quê de enigmático”, a ver pela surpresa de Isabel ao acolher Maria. O cardeal descarta uma série de hipóteses, com as quais se tende a justificar esta viagem de Maria, tais como: uma fuga apressada por causa da visita do Anjo e o facto de Ela ser muito nova e sem marido; para procurar um refúgio; para ir ao encontro de Isabel para a ajudar no seu parto por falta de ajuda. É mais verosímil que não precisaria de sair de casa, uma vez que já tinha José para a proteger; Isabel também não precisaria dela por ter vizinhos e parentes ao pé dela; não fazia sentido ter ido ajudar Isabel no seu parto, uma vez que só ficou ali três meses (e não nove) indo-se embora.

Há um aspeto que ainda adensa mais o mistério: Maria vai sozinha e não em caravana, como era costume naquele tempo; e, ainda por cima, vai pelo trajeto mais difícil, de 120 km pelo caminho das montanhas, o mais perigoso de todos, entre a Galileia e a Judeia. Seja como for, para Maria tratava-se de uma decisão importante, que Ela não podia adiar. O que estaria em jogo nesta decisão?

O cardeal Tolentino ajudou-nos a compreender, a partir dos elementos contidos no texto evangélico, que no princípio desta peregrinação de Maria até à casa de Isabel está gravado no seu coração um grande “Sim livre e comprometido que determina a partir de agora a sua existência” e que ilumina tudo o que suceder a partir dali. É este sim que dá sentido à sua decisão. Um sim como resposta à mensagem do Arcanjo, por quem disse ao Senhor “Eis a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a vossa palavra”. De facto, naquelas palavras, Maria está a afirmar que a sua vida está colocada nas mãos de Deus e ao serviço de Deus. “E esta sua resposta recorda-nos duas coisas: que a História da Salvação interpela de forma concreta a vida de cada membro do Povo de Deus e que a nossa adesão a essa História é dada no real da vida, implicando-nos aí, e não numa ontologia abstrata e impessoal”.

A expressão “uns dias depois” (em vez de “naqueles dias”), diz da correlação íntima que existe entre o episódio da Anunciação e o da Visitação. É curioso que as Igrejas ocidentais chamam ao episódio da Anunciação de “Evangelização”; e chamam ao episódio da Visitação de “Saudação” (cf. D. António Couto). D. Tolentino diz-nos que a razão que leva Maria a levantar-se e a partir é uma razão interna, mais do que externa. “Deus entrou na sua vida. Maria é transformada pela visita de Deus. E a consciência do impacto do amor de Deus, experimentado numa forma vital, não a deixa mais parada, nem a autoriza a ser apenas espetadora do curso dos acontecimentos”.

Para Maria como para todos nós, batizados, o sim a Deus traz consequências, que são:

1) “Testemunhar com os olhos o acontecer de Deus” através da alegria própria da idosa Isabel que testemunhou Jesus no seio de Maria, como os pobres pastores que testemunharam o nascimento de Jesus. Assim Maria quer confirmar a experiência da sua fé. “Maria tem fome e sede de ver com os seus olhos; quer tocar a condição tangível e histórica dessa verdade que lhe foi anunciada e que a coenvolve. Por isso, a pressa de Maria não deve ser entendida simplesmente em sentido físico: é dentro de si, no seu coração que Maria tem pressa, que Maria vibra na expectativa de Deus. A sua pressa é uma disposição interior, um estado de espírito, o vivo desejo de contemplar alguma coisa que ocupa agora o centro do seu coração. Maria quer ser testemunha”.

2) “Ser mediador do protagonismo de Jesus na história”. Naquele encontro de Maria com Isabel, Jesus é o protagonista e elas oferecem a sua vida, até as suas entranhas, como mediação histórica desse protagonismo. Assim, também nós somos chamados a levantarmo-nos e a partirmos, como nos inspirou o Papa Francisco no início da sua exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”, para nos afastar do “grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada”:

A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria. Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos.

Na JMJ Lisboa 2023, os jovens foram convidados a levantar-se e a partir, como Maria. Depois daquele grande acontecimento, a par dos testemunhos veiculados pela comunicação social, já não sabemos bem decifrar o que vai no coração dos jovens, mas o mais importante é a decisão de cada jovem poder oferecer a sua vida, testemunhando o acontecer de Deus nos seus corações e dando a conhecer aquele fundamental protagonismo de Jesus na história.

Assim D. António Couto nos faz refletir com é que deve acontecer connosco, a par do que aconteceu com Maria: a de cada um poder fazer, a partir da sua formação humana e cristã, uma releitura da história do Povo de Deus, onde inserir a sua própria história, deixando-se iluminar pelo Evangelho de Deus, a Boa Notícia que é Jesus. A partir daqui, já não seremos nós a cantar a Deus, mas a deixar Deus cantar em nós as mais belas melodias.

Ontem celebrámos a memória de São Maximiliano Maria Kolbe, que nos exortava assim:

Deixemo-nos guiar por Maria. A vontade de Maria, não há dúvidas, é a vontade do próprio Deus. Nós, portanto, consagrando-nos a ela, somos também, como ela, nas mãos de Deus, instrumentos de sua divina misericórdia. Deixemo-nos guiar por Maria; deixemo-nos levar por ela e estejamos, sob sua direção, tranquilos e seguros: ela cuidará de tudo e suprirá todas as nossas necessidades, tanto da alma como do corpo; ela própria removerá as nossas dificuldades e angústias.

Com o venerável D. Tonino Bello, rezo:

Santa Maria, mulher do silêncio, faz-nos voltar às fontes da paz. Liberta-nos do assédio das palavras. Das nossas palavras, antes de tudo. Mas também das palavras dos outros. Faz-nos compreender que só quando nós nos calarmos, é que Deus poderá falar.