XVII Domingo do Tempo Comum (B) ─ L 1 2 Re 4, 42-44; Sl 144 (145), 10-11. 15-16. 17-18 L 2 Ef 4, 1-6 Ev Jo 6, 1-15 | Dia Mundial dos Avós e dos Idosos
Estivemos com Jesus numa margem em que Ele, cheio de compaixão, viu que as pessoas na multidão eram como ovelhas sem pastor. Hoje estamos noutra margem, em que nos ensina por onde se deve começar: pelo cuidado para com o corpo, cujo desprezo, hoje, a Igreja chama de heresia. Em cada margem é como se Ele estivesse a formar os seus discípulos/apóstolos para virem a ser verdadeiros pastores, que juntam, não dispersam, as ovelhas. E antes de considerar o alimento espiritual ─ que Ele sabe não ser prioridade da multidão, mas aonde quer levar livremente aqueles que a compõem ─ Ele começa por oferecer o alimento corporal num gesto que prefigura o sentido da liturgia da Igreja no seu mais central memorial/sacramento que une sacrifício e vida nova.
Chamou-se durante muito tempo e sem dar espaço a outras interpretações o episódio da “multiplicação dos pães”, embora, também, “dos peixes”. Mas pode receber outros títulos, tais como: o “milagre da partilha generosa”, a “justa distribuição dos bens da terra”, etc. A resposta “nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” com que Jesus responde a satanás no deserto (cf. Mt 4,4) não serve meramente para considerar a palavra que sacia a alma acima de qualquer alimento que sacie o corpo, mas antes de disso para nos defender de uma cultura do poder iníquo, de quem não se deixa governar pela vontade de Deus no tratamento dos bens deste mundo.
O testemunho daquele “rapazito” que é apresentado por André, é o de uma humilde capacidade de abrir mão do pouco que se tem, sabendo que, com o poder de Deus, chegará para si e para mais. Não é compatível com a visão capitalista de Filipe que sugere que se mande a multidão embora, por não ser possível comprar pão para tanta gente. Esta visão capitalista leva muitos, ainda hoje, a regressarem a casa para comer a fartura que não precisam, indiferentes a quem chega a casa depois de um dia de trabalho digno sem poder dar aos seus o que é básico par a vida.
Bastariam 2% de um multimilionário conhecido para resolver a fome no mundo inteiro. Isto não está a acontecer porque os homens o querem fazer à sua maneira: através do reconhecimento do seu poder. A multidão também quis fazer de Jesus o Rei esperado. Jesus esconde-se na oração ao Pai, de onde Ele sabe somente vir o poder manifestado em forma de serviço não calculista, não calculador e não manipulador.
Aos seus discípulos Jesus ensina que basta serem “fermento” de uma cultura centrada no bem de todas as pessoas (fraternidade universal) e da pessoa toda (ecologia integral). A “maneira de viver a que fostes chamados” é apontada por Paulo para aí, envolvendo muitos tipos de bens: humildade, mansidão, paciência, caridade, unidade de espírito. Para isso, é precisa a partilha de muitos bens e não só de pão material, tais como: o saber, o afeto, o querer bem, a amizade social, a presença, etc. Podemos praticar a partilha destes bens aos que hoje precisam mais deles: os Avós e os Idosos a quem dedicamos este Dia Mundial, para o qual o Papa Francisco escreve uma mensagem muito oportuna e significativa, intitulada “Na velhice, não me abandones” (cf. Sl 71,9). Hoje, o pão que mais rico que podemos dar aos avós e aos idosos é a ternura, manifestada numa visita ou num telefonema, demonstrando que Deus nunca os abandona. Pois “há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, atua em todos e em todos Se encontra”. O que acreditam nesta verdade dão-lhe corpo, não só boa intenção; os que não acreditam precisam desta ternura e presença, ainda que meramente humana, anónima ou discreta. Será sempre inspirada por Deus, em favor de quem recebe e de quem dá!
