Não é segredo para ninguém que a missão dos enviados de Jesus, hoje em dia, ─ sejam eles o Papa, os bispos, os presbíteros, os diáconos, os religiosos e as religiosas de vida apostólica, leigos e leigas nos movimentos e no matrimónio ─, está dificultada por um grande sedentarismo, próprio de uma “pastoral de manutenção” ou de “conservação”, que não ajuda ao acolhimento e compreensão dos apóstolos de hoje como “enviados” pelo Senhor, como Ele quer e para o que Ele quiser, na ótica da salvação e do Reino de Deus.
Subproduto do sedentarismo eclesial é uma pastoral exclusivamente sacramentalista, que deita a perder, inclusivamente, a profecia contida numa boa preparação e celebração dos Sacramentos, da qual se espera uma transformação da forma de estar no mundo e da forma de ser e partir em Igreja. Outro subproduto é o de comunidades que vivem a fé de forma autorreferencial, com um conjunto de pessoas intimistas, solitárias, que correm o risco de levar a perder a identidade e a desvanecer o sentido da missão investida por Jesus.
O que dá credibilidade à Palavra e à missão da Igreja é a solidariedade ─ o ser enviados dois a dois. Aqui podemos ver tanto os apóstolos, como os casais que vivem o matrimónio, como os padres que planificam juntos a missão, os catequistas que se juntam para preparar os encontros, o conselho presbiteral, os conselhos pastorais, económicos, as assembleias arciprestais, etc.
O Instrumentum laboris da 2ª Sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, com o título Como ser Igreja sinodal missionária, que acontecerá em outubro de 2024, mostra-nos uma dinâmica onde podemos contemplar movimento e não estagnação. Pôr em conjunto os “Fundamentos”, as “Relações”, os “Percursos” e os “Lugares” só pode dizer de uma Igreja que quer ser fiel ao seu fundador e à missão/destinatários aos quais Ele nos enviou.

Somos chamados, nesta hora em que vivemos, a voltar aos fundamentos que nos dão vitalidade e não ao misticismo “copy+past” (copiar e colar) de alguns episódios da história, registos e sinais do poder de alguns, que nos travam e fazem estacionar numa resposta escrupulosa a tradições, em vez de um compromisso profético que decorre de uma proclamação séria do Evangelho e no contacto com a realidade em que estamos imersos.
Sempre considerei muito oportuna e madura a pergunta: Como Jesus faria se estivesse aqui e agora? Esta mesma pergunta é uma provocação constante a regressarmos à Fonte ─ não meramente aos socalcos ─ para dela tirarmos, com a ajuda do Espírito Santo, a mesma água viva para refrescarmos a fé e a força que nos leva, com coragem, a agir em nome de Jesus Cristo. O Magistério não nos reprova, nesta ação, mas encoraja-nos, desde que o façamos em Igreja e não isoladamente. Porque a missão de que Jesus nos investe é um prolongamento da sua missão e não um distante reflexo.
Poderíamos aferir dos enviados de Jesus Cristo a partir das relações com que somos convidados frequentemente a fazer o nosso exame de consciência (que pode ser pessoal e, também, comunitário): com Deus, com os irmãos, connosco próprios e com a Criação:
1) A respeito de Deus, o profeta recebe um mandato. Hoje, podemos referi-lo não só aos padres, mas também a cada batizado que, no seu grau, pode e deve participar na missão de Jesus Cristo. Uma prova que esse mandato vem de Deus é, inclusivamente, a reação ou um acolhimento fraco do mesmo. Neste sentido, não temos os padres que queremos ou gostaríamos para satisfazer os nossos caprichos espirituais, mas os que Deus sabe que precisamos para levar a cabo a sua missão.
2) A respeito dos irmãos, eles são chamados a acolher o desígnio que se encontra em quem é enviado por Deus, não obstante as fragilidades, mas tendo presente que o anúncio é a mensagem intacta que se é chamado a transmitir por palavras e obras. Se estas não são aceites naquela pessoa que é enviada, o Senhor sugere que se lhes sacuda o pó das sandálias.
3) A respeito da pessoa que é enviada, ela é chamada a ser sóbria e pobre. É curioso que o Senhor proponha que não tenha casa, mas fique numa só casa de alguém. De facto, o enviado é “vaso” da Mensagem e basta que seja “de barro”.
4) O respeito pela Criação é um desafio para com a totalidade da missão, que é chamada a ser integral, como São Paulo dizia, a respeito de “instaurar todas as coisas em Cristo, tudo o que há nos céus e na terra”. De antemão, Deus preparou para o ser humano o cenário em que é chamado a crescer e a deixar-se transformar para a vivência do seu Reino que já começa aqui, como ponte para a outra margem. Como se entre as duas margens houvesse alguma correspondência ou semelhança, como que num espelho.
