Por vezes, confunde-se fé somente com os conteúdos ou tradições já dadas, excluindo-se do ato de crer a descoberta do que está para vir. Por isso, é que a consideração da vocação – escuta de um chamamento divino – está em crise: por falta de acolhimento e resposta permanente.
Tenho por certo que nunca conseguiremos empreender a tal “nova evangelização” se não tivermos a coragem de dar tempo suficiente aos relacionamentos humanos em profundidade. Só assim é que faremos e renovaremos aquilo a que chamamos de “cultura” = mentalização + sensibilização + pedagogia (acompanhamento). Para isto, porém, é preciso um crer que queira, que é ao mesmo tempo um querer que creia.
Aconteceu com Jesus o que pode acontecer com qualquer cristão que sai da sua terra para fazer um caminho de especial formação, como é o da formação sacerdotal, a da formação especial para exercer o diaconado permanente ou qualquer outro ministério: ao chegar à própria terra, encontra-se sempre alguma resistência a novos conhecimentos que permitem novos procedimentos, caminhando por cima do mesmo alicerce ou fundamento. Isto inclui sempre a pedagogia, mas nem sempre esta é fácil ou possível. Requer-se, pois, também, uma nova estratégia ou pedagogia.
A comunidade de Nazaré viu Jesus crescer e Ele aprendeu muitas coisas no seio da família de Nazaré. Após aqueles longos anos, em pleno decurso da sua vida pública, feita de pregação e de curas (a que chamamos milagres), imaginemos Jesus a regressar à sua terra para partilhar aos seus familiares e conterrâneos a alegria do que até então tinha conseguido, os milagres que tinha realizado. Aconteceu, como era hábito, quem visitasse a sua terra, fosse à sinagoga presidir à liturgia de sábado, como gesto de acolhimento e para se ter acesso a notícias. Porém, as reações a Jesus foram de uma admiração estranha, como que cética quanto ao poder anunciado, por causa de uma familiaridade humana “descrente” que impedia a familiaridade com as novidades de Deus. Até o nome de Jesus ignoraram, tratando-O por “este”. Argumenta-se com a sua humanidade para se ignorar a sua divindade. Como levar a que seja reconhecido como Cristo?
São precisos corações abertos à graça de Deus que permite o reconhecimento da natureza divina de Jesus. É a mesma graça de Deus que pode permitir aos fiéis de uma paróquia reconhecer a presença do Espírito Santo num Ministro da Celebração da Palavra na Ausência do Presbítero na assembleia litúrgica do domingo, ainda que se entenda como situação irregular. Ou de um Diácono Permanente a presidir ao Sacramento do Batismo, um funeral ou à assistência da celebração do Matrimónio – estas situações como regulares (dentro da regra), porque o Diácono é ministro Ordenado em quem é delegada autoridade para tal. Com uma maior diversidade de serviços ou ministérios, os Presbíteros teriam mais tempo e capacidade para fazer como Jesus: fazendo “apenas” o necessário, indo ensinar nos “arredores”.
Diante do “fracasso” em Nazaré, Jesus não baixa os braços, pois sabe que Lhe basta a graça do Pai. Já tinha acontecido com Ezequiel e acontecerá com Paulo, a quem diz: “basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder”. Jesus identifica-Se com aqueles que doravante abraçam diariamente o caminho do Evangelho mesmo que lhes acarrete problemas e, por isso, já são bem-aventurados (cf. Sermão da Montanha, 8a bem-aventurança).
