L 1 Sir 48, 1-15 (gr. 1-14); Sl 96 (97), 1-2. 3-4. 5-6. 7 Ev Mt 6, 7-15
Numa das suas catequeses sobre o Pai nosso, o Papa Francisco lembra como Jesus introduz o ensinamento desta oração, tomando distância de dois grupos do seu tempo. Antes de mais, dos hipócritas, pela forma rígida como rezavam nas praças públicas, para serem notados pelos homens. Depois, os pagãos, por pensarem que seriam atendidos por Deus por dizerem muitas palavras. Aqueles faliam no modo; estes no conteúdo. Ambos rezavam de forma como que “ateia”.
O Pai nosso está presente nas três principais orações da jornada de um padre, e todos os cristãos o podem ter por referência: nas Laudes, na Eucaristia e nas Vésperas. E não está ali só a servir de “apêndice” das preces ou da oração eucarística. Na verdade, a oração do Pai nosso ensinada por Jesus é garantia de pelo menos duas coisas no meu humilde modo de ver: para certificar que o essencial da oração cristã está presente, como um sumário de doutrina que nunca se esquece, e para servir de pêndulo entre a adoração a Deus e o amor aos irmãos, como se de um programa de vida se tratasse.
No confronto com os seus primeiros discípulos que Lhe pediam o ensino de orações, como viam os outros rabinos fazer com os seus seguidores, Jesus preferiu instaurar um cruzamento de relações que tornam a sequela cristã fecunda, prova de verdade selada pela equidade do perdão, na relação filial com Deus Pai e na relação fraternal com os irmãos.
No Livro do Ben-Sirá, está claro o espírito que une Elias e Eliseu, mais uma vez o modo com que se transmite um horizonte. É próprio de pessoas inflamadas por Deus, capazes de viver muito à frente do seu tempo, pequenas palavras e ações como setas atiradas muito para além da sua existência física, a tirar pessoas futuras do abismo, escolas de uma profecia que nunca mais acaba.
Um breve testemunho: no Sínodo que a Diocese de Viseu celebrou entre 2010 e 2015, na comissão da Palavra de Deus/Dei Verbum que me foi dado orientar, por pouco os seus elementos iam caindo no abismo de tarefas que se perfilavam para virmos a parecer uma Igreja correspondente à Palavra, quando o Espírito Santo nos guiou no discernimento do espírito com que a Palavra do Senhor poderia ser melhor transmitida. Estava em jogo obedecer a Deus antes que aos homens; ganhar o céu em vez da terra. Por vezes, em Igreja, corre-se o risco de uma planificação na base de muitas tarefas que deitam a perder o espírito, em vez de se discernir o espírito que nos deve unir no caminho, fazendo o melhor possível o que está ao nosso alcance. O Pai Nosso é um destes programas fundamentais que é “cascata” de Amor e “escada” de Fraternidade no Espírito de Deus.
