L 1 1Rs 21, 17-29; Sl 50 (51), 3-4. 5-6a. 11 e 16 Ev Mt 5, 43-48
Se o amor de Deus para connosco é surpreendentemente desproporcional, como não poderia ser o nosso amor para com os nossos semelhantes. A nossa forma de amar pode contribuir para que os que procuram Deus possam perceber melhor o seu rosto. E a forma de amar de Deus em nós ajuda-nos a perceber o rosto d’Ele nos que foram criados à sua imagem e semelhança.
O Evangelho de hoje apresenta-nos, mais uma vez, uma regra de vida que caduca à luz da moral cristã: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”. Jesus atualiza-a para: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus”.
O amor de Deus que Jesus protagoniza não tem limites. Ser seus discípulos é perseguir este não-limite do amor. Senão não passaremos da fronteira dos pagãos. Em sentido universal, todo o fratricídio (morte do irmão) na relação com o outro é um deicídio (morte de Deus) dentro do próprio coração. Quando fala do amor universal que promove as pessoas, o Papa Francisco diz:
Para se caminhar rumo à amizade social e à fraternidade universal, há que fazer um reconhecimento basilar e essencial: dar-se conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância.
É nesta lógica que os que “habitam” a Igreja formam uma comunidade «em saída»: no sentido de calcorrear o chão da vida das pessoas através de um amor concreto e atrevido, fora da lógica meramente humana ou mundana, fora das meras relações de sangue ou da mesma pertença sócio-religiosa ou cultural. Aos que teimam em temer sair pode acontecer aquilo que aconteceu com o rei Acab: em relação aos de fora e, até, entre si, viver na lógica dos calculismos de que quem procura garantir um bem para si e não tanto para os outros. É aqui que se confirma o suicídio da alma, a culminar o fratricídio e o deicídio. Reverter este retrocesso na corrupção da civilização humana implica viver a fraternidade, a filiação a Deus a partir da vivência/defesa da própria dignidade fundamental inscrita em todo o ser humano como vocação, quer dizer: o chamamento que Deus faz a partir do seu amor infinito e a resposta que cada pessoa é chamada a fazer desde o ponto ou situação em que se encontra.
A lógica da excelência humana/social sugere-nos que para sermos exigentes com os outros teremos de ser exigentes com nós próprios; a ilógica ou paradoxo do Evangelho chama-nos a ser pacientes com as próprias fragilidades para conseguirmos lidar com os limites dos outros. Penso humildemente que o mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus nos poderá ensinar este “ilógica” que plenifica a vida.
