navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 1Rs 21, 1-16; Sl 5, 2-3. 5-6. 7 Ev Mt 5, 38-42

O Evangelho de hoje é a prova provada de que há leis que outrora, a nível da moral ou religioso, foram consideradas idóneas (baseadas no princípio da retribuição), e que à luz do Evangelho não são compatíveis com a moral cristã. Esta propõe que os comportamentos a imitar são os de Deus e não os dos homens. Quando muito, os destes podem servir de referência, mas não de fundamento.

Jesus é claro: aos olhos de Deus, a justiça nunca se fará com a vingança, mas sempre com a humildade, a bondade e o perdão. Deu testemunho disso na Cruz. Dá aos seus discípulos a lição de que é com o perdão que se responde às injúrias. É com ele que se prova a inocência e uma consciência tranquila. É esta uma das maiores manifestações da caridade.

Infelizmente, à luz de leis não cristianizadas ou evangelizadas, houve e continua a haver muitas injustiças, fruto de uma má consciência. A primeira leitura apresenta-nos um caso em que em alternativa à compra injusta de uma vinha por dinheiro, provocou-se a morte do seu herdeiro e dono. E a estratégia foi um jejum sem escrúpulos que justificou um julgamento injusto.

Hoje vive-se internacionalmente o Dia da Consciência, em homenagem ao cônsul Aristides de Sousa Mendes. Ocorria o dia 17 de junho do ano de 1940, quando o Cônsul de Portugal em Bordéus-França, começou a salvar a vida de dezenas de milhares de pessoas, crianças, mulheres e homens, que sofriam as atrocidades das tropas nazis que tinham invadido as terras da Europa.

Como lembra D. António Luciano, Bispo de Viseu, “O Dia da Consciência começou a ser celebrado no ano de 2020 com o reconhecimento do Papa Francisco, que indicou Aristides de Sousa Mendes como o seu patrono, em nome da justiça e da defesa da dignidade da pessoa humana, por ter decidido “seguir a voz da sua consciência” e salvar “a vida de milhares de judeus e outras pessoas perseguidas” para lhes dar um visto de entrada em Portugal. (…) O Papa Francisco tomou como referência o exemplo e testemunho do Cônsul de Bordéus para evocar «que a liberdade de consciência possa ser respeitada sempre e em todo o lugar e que cada cristão possa dar exemplo de coerência, com uma consciência reta e iluminada pela Palavra de Deus»”.

E como reflete D. Antonino Dias, Bispo de Portalegre-Castelo Branco, “pela fidelidade a esta voz da consciência, estamos “unidos aos demais homens, no dever de buscar a verdade e de nela resolver tantos problemas morais que surgem na vida individual e social. Quanto mais, portanto, prevalecer a reta consciência, tanto mais as pessoas e os grupos estarão longe da arbitrariedade cega e procurarão conformar-se com as normas objetivas da moralidade” (cf. GS16). Tudo o que se opõe à vida… corrompe a civilização humana”.

Aristides de Sousa Mendes foi uma referência da vivência deste paradoxo evangélico da não resistência perante a injustiça, preferindo perder luxos pessoas/familiares a não defender a vida de pessoas concretas. Era ele que dizia: “Se estou a desobedecer a ordens, prefiro estar com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus”.