navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Sir 39, 8-14 (gr. 6-11); Sl 18 B (19B), 8. 9. 10. 11 Ev Mt 5, 13-19 ─ Na Festa de Santo António de Lisboa

A vocação, a vida e a missão de Santo António pode ajudar-nos a responder à pergunta do título desta meditação. Pode lá ser preciso um esforço intelectual que não ajude a encarnar a fé? Pode lá servir uma piedade popular que não seja transparência do Evangelho? O testemunho deste Santo, muito aquém das lendas populares, ajuda-nos a perceber que o Evangelho é tão preciso para a vida como o pão para a boca e que ele será tão vivo quanto mais as obras falarem.

Foi sobretudo o romance histórico “António Secreto” de Nicola Vegro, que me ajudou a perceber que a vida deste Santo com mais realismo, apesar das artimanhas da cativação próprias da literatura romancista. Percebi que a sua missão como pregador e professor de Teologia esteve sempre ligada aos casos da vida. Iluminavam desde cima a vida que ele contactava desde baixo. Ele reclamava da Teologia o que ela deveria ser: resposta aos problemas do seu tempo. Era uma resposta a casos e situações que enfrentava no contacto com a realidade das pessoas, como se a vida problemática das pessoas que encontrava reclamasse a verdade que faltava ser dita. Neste sentido, penso que é pouco dizer que foi só “martelo dos hereges”, porque foi, também, a seu modo, “corretor de contas” diante de injustiças relacionadas com a usura. Naquele tempo, foi alguém que poderia receber o título de provedor diante dos abusos a pessoas vulneráveis. Santo António ensina-nos que não se pode fechar a Teologia em clichés, mas fazer dela uma ponte entre o céu e a terra.

Como dizem os franciscanos conventuais, na Trezena de Santo António, a vocação de António está entre uma oliveira e uma nogueira. Em Coimbra, foi no monte dos olivais que iniciou a sua vida franciscana; foi ali que foi “plantada” a oliveira da misericórdia tão presente nos seus sermões. Em Camposampiero, nos últimos anos da sua vida, foi numa nogueira que os seus irmãos lhe prepararam que ele contemplou o Senhor nos problemas das pessoas que ali acorriam a pedir bênçãos. António foi um evangelizador e um ministro da misericórdia do Senhor. No fundo, a sua forma de difundir a saudação “paz e bem” própria dos franciscanos.

Assim, também qualquer vocação de consagração ao Senhor deve ser uma síntese entre os valores naturais e os valores da missão concreta a que cada um é chamado a viver em espírito eclesial/comunitário.

É assim que podemos ler o convite do Senhor Jesus a ser “sal” e “luz”: sendo misericórdia e bênção. Misericórdia que parte do conhecimento profundo da vida das pessoas; bênção que é ser presença com um bem concreto e não abstrato, como é o pão. Estas palavras também se podem traduzir por: equilíbrio e transparência.

Quando Jesus nos informa que não veio revogar a Lei ou os Profetas, mas completar, intuo que, também o Mestre teve de lidar com muita “purpurina”: as camadas de leis que não emergiam da Lei e dos Profetas, que é Palavra de Deus, mas leis de governo humano (farisaico) nem sempre atuais, que não deixavam ver claramente o sentido do projeto divino da paz e da justiça. Para Jesus, os seus discípulos ─ sendo sal e luz, quer dizer, vivendo os valores do Evangelho com equilíbrio e transparência, com misericórdia e bênção ─ são como que restauradores, desmascarando o “lixo” que impede de experimentar uma contemplação mais real da vida humana e do seu sentido último. É que há uma dimensão transcendente que habita cada ser humano. Por isso, pôr em prática o Evangelho é a forma ─ para quem crê a única ─ de trazer ao de cima a igual e infinita dignidade que está nos seres humanos e em toda a criação. “Teologar” é “meditar na Lei do Altíssimo” e metê-la em confronto, sem delongas retóricas, com as situações da vida das pessoas. Entre a Lei de Deus e o grito de cada ser humano não deve haver cálculos, mas pontes.

Que Santo António nos ajude, com a sua intercessão, a ser realistas esperançosos.