navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 1Pd 1, 10-16; Sl 97 (98), 1. 2-3ab. 3cd-4 Ev Mc 10, 28-31

O Evangelho de hoje faz uma unidade com o episódio de ontem (cf. Mc 10, 17-27), em que Jesus dialoga com um homem rico que procura a vida eterna, por quem nutre simpatia, por ser honesto quanto ao cumprimento dos mandamentos desde a juventude. Porém, por estar muito preso às riquezas deste mundo, não aceita a proposta de Jesus, de se libertar daqueles bens, de os partilhar com os pobres e de O seguir. Aquele homem cresceu no automatismo farisaico do cumprimentos de normas para ter acesso à vida eterna e imaginaria que Jesus lho pudesse confirmar sem mais exigências. Fica frustrado e desiste de buscar qualquer outra novidade que não seja ter dinheiro e cumprir leis.

Jesus convida a dar o salto entre o automatismo farisaico ou o egocentrismo narcísico e a gratuidade fraterna. A “mola” é o paradoxo de um seguimento contracorrente. Dinheiro + leis poderão ajudar a governar uma vida terrena, mas não ajudam a pôr-se a caminho para a vida eterna.

Este episódio faz-me lembrar alguns meandros da nossa religião de hoje, feita de ritos pagos ou de uma riqueza enfeitada de rituais religiosos que apaziguam a vontade humana, nos alheia em pequena ou grande medida da vontade de Deus manifestada na Pessoa de Jesus Cristo. Jesus deixa claro que não quer que nada seja absolutizado senão Deus. Por isso, o que tem que ver com a suma vontade de Deus não depende das riquezas ou modos mundanos. Por isso é que o Papa Francisco nos tem alertado tanto para o perigo do mundanismo espiritual. O horizonte da fé não é a autosuficiência ou a autorreferencialidade, mas o fazer experiência (experior = sair de si) em direção ao totalmente Outro e aos irmãos.

Por outro lado, na resposta que no Evangelho de hoje dá aos seus discípulos, Jesus também quer deixar claro que “deixar tudo para O seguir” não é espiritualmente gratuito, quer dizer: ganha-se a vida eterna, mas à custa de muitas perseguições. Quem se desprende de tudo por causa do Evangelho, faz o que devia fazer e não deve fazer-se pagar. Jesus convida a não absolutizar, também, esta atitude, impedindo-se o livre espaço da ação de Deus, que mesmo dos ricos pode fazer discípulos. Nem que seja mediante um espantoso milagre!

A respeito desta liturgia, o Papa Francisco adverte-nos que

Muitas vezes fazemos o mínimo indispensável, enquanto Jesus nos convida ao máximo possível. Quantas vezes nos contentamos com os deveres, os preceitos, algumas orações e tantas coisas deste género, enquanto Deus, que nos dá a vida, nos pede impulsos de vida! No Evangelho de hoje, vê-se bem esta passagem do dever ao dom. Jesus inicia recordando os mandamentos: “não matar, não cometer adultério, não roubar” e assim por diante, e chega à proposta positiva: “vai, vende, doa e segue-Me!”. A fé não pode limitar-se ao “não”, porque a vida cristã é um “sim”, um sim de amor.

No caminho do Reino de Deus, Jesus evita diante dos discípulos todo o tipo triunfalismo, deixando clara a distinção entre a “paisagem” da terra e a “paisagem” da vida futura, semeando o paradoxo entre o que significa ser último e o que significa ser primeiro. Está a preparar, pelo exemplo, aqueles que, conforme observa o Apóstolo Pedro, hão de anunciar o mistério da salvação, movidos pelo Espírito Santo enviado do Céu, sem se deixar conformar pelos desejos de outrora, fruto da ignorância, mas pela santidade de Deus. Esta ilumina o caminho que vai da perda para a vitória, do sair para perder, do morrer para viver.

Desde que o Papa Francisco reconheceu, na manhã do passado dia 23 de maio, o milagre atribuído à intercessão do Beato Carlo Acutis, esperando-se a data da canonização conjunta com outros veneráveis da Igreja, temos vindo a contemplar diversas manifestações em torno deste jovem que têm tons de profecia, conhecido como influencer de Deus, o primeiro jovem millennial a ser venerado como Santo. Dizendo numa pequena entrevista, afirmou “estou destinado a morrer”, mas passou os seus dias a adorar Jesus, na Eucaristia como sua “autoestrada para o céu”, a dar comida aos pobres e a evangelizar os outros jovens pelas redes sociais da Internet. As redes sociais proliferaram a notícia de que a sua mãe teve um sonho onde São Francisco de Assis lhe disse: “seu filho ocupa um lugar muito alto no céu e, depois de ser canonizado, virá uma geração de santos”. Não vi este testemunho em nenhum site oficial. Quer dizer que a toda a hora, Jesus ressuscitado pode abrir caminhos de santidade em todas as idades. E o anúncio desta possibilidade pode vir de muitos modos. Estejamos abertos a acolher e a interagir com o Espírito Santo, que sopra onde quer (cf. Jo 3,8).