L 1 1Pd 1, 3-9; Sl 110 (111), 1-2. 5-6. 9 e 10c Ev Mc 10, 17-27
Alguém disse que ser feliz é simples; o difícil é ser simples. Esta afirmação faz-nos pensar naquele homem rico que foi ter com Jesus correndo. Mas deve ter sido pouca a distância, uma vez que não poderia levar muita riqueza para longe… Esta riqueza pode simbolizar os bens materiais, mas também uma vida religiosa abundante, mas sedentária ou residente. Desde este ponto de vista, aquele homem cumpria tudo o que era devido desde a juventude. E no entanto, vender tudo e dar aos pobres era só a porta para ir atrás d’Ele e segui-lo.
O Papa Francisco, na aventura da preparação do Jubileu 2025, anda a visitar os jovens nas escolas e colégios romanos. Há dias, num encontro com 80 jovens, um deles, interpelado pelo Santo Padre, disse-lhe: “admiro todos aqui e tudo o que fazem, mas já vi tantas vezes que acreditar é fácil demais. Eu gostaria de acreditar em algo, confiar minhas preocupações e preocupações a alguém”. O Papa elogiou este testemunho como belo, agradecendo-lhe a honestidade. Respondendo ao jovem, Francisco falou do risco da comodidade, dizendo que “ninguém deve ser condenado se não acreditar. O que é importante é pôr-se a caminho. Se vejo um jovem que não se mexe, que fica parado na vida, que não gosta de se mexer, isso é mau. Mas se eu vejo um jovem que cai no calor e se mexe, tiro-lhe o chapéu! É preciso mover-se por um ideal”. Partilhando com os jovens a preocupação por quem se perde nos labirintos da vida, disse que “cada um de nós deve fazer-se esta pergunta, porque o Senhor tem um plano para cada um de nós. Cada um de nós deve procurar compreender o que o Senhor quer de nós, perguntar-Lhe. Pergunte ao Senhor em oração: o que você quer de mim?”. “O principal para sair de um momento sombrio é não caminhar sozinho, pois assim se perderá o norte. É importante falar sobre a sua própria situação”. O Pontífice encorajou-os a não enfrentarem estas crises sozinhos, mas em companhia, em comunidade, sublinhando: “de uma situação difícil, de um momento de incompreensão, ninguém jamais sai sozinho. É importante falar sobre a sua situação e não ‘comê-la’ sozinho.”
É possível para Deus salvar o ser humano, a não ser que alguém esteja apegado a outros deuses. O crente não se salva sozinho, mesmo depois de todo o esforço que lhe é possível. Afinal, precisa de esvaziar-se de todos os apegos. Entre estes podem estar os bens materiais, mas não só. Há muitos objetos de prazer que não ajudam a lançar a vida para o horizonte sonhado por Deus para cada ser humano. Como refere o Apóstolo Pedro, “a esperança viva e a herança que não se corrompe” e que está reservada para nós no céu, só se pode obter pelo renascimento em Cristo ressuscitado. Para isso, estamos implicados na prova da fé, que é prova de fogo. O fim maior a que o crente pode aspirar é “a salvação das vossas almas”. Não há fonte de alegria maior.
A subcomissão da ação caritativa e social da Conferência Episcopal Espanhola publicou uma mensagem para o Dia da Caridade que ali vão celebrar no próximo dia 2 de junho, no domingo em que na Espanha se celebra a Solenidade do Corpo de Cristo. Refletindo que “a pobreza e a exclusão são um fenómeno estrutural que persistem para além da situação económica geral” propõem três caminhos prioritários para estes tempos, que são: sair para encontrar as pessoas mais pobres, comprometer-se com o bem comum e a comunidade fraterna, onde se é chamado a viver o amor recíproco.
Vejo esta reflexão e atitude dos bispos aquele convite que Jesus faz ao homem rico com olhar de ternura. Hoje peço, também, para a nossa Igreja em Portugal, para que saiba promover mais uma pastoral de processos e não tanto de setores. A riqueza (de dinheiro e de meios) sem horizonte não é útil à pastoral da Igreja. Pelo contrário, a unidade de esforços apontados para os valores do Evangelho já será capaz de envolver a todos no projeto do Reino de Deus.
