L 1 Tg 5, 9-12; Sl 102 (103), 1-2. 3-4. 8-9. 11-12 Ev Mc 10, 1-12. Reflexão inspirada, em parte, em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
É uma caraterística dos fariseus a dificuldade em superar uma conceção moral exclusivamente legalista. E usam esta sua tendência para pôr Jesus e os seus discípulos “em apuros”.
O propósito originário do previsto em Dt 24,1-4 era tutelar a mulher e garantir-lhe uma certa liberdade. Mas, na realidade, o que se discutia nas escolas rabínicas era as razões do divórcio. Ou seja, se bastava que a mulher deixasse queimar a comida ou que o marido encontrasse outra mais bela, ou se o processo do divórcio deveria ter lugar unicamente em caso de adultério da mulher. Na perspetiva farisaica, o homem nunca cometia adultério. A mulher é que era a serpente. Deus estava fora das suas equações.
Jesus devolve a pergunta, convocando a jurisprudência contextualizada de Moisés, porque já sabia que os fariseus tendiam a colocar nestas questões a mulher como inferior ao homem. Declarar as razões encontradas por Moisés era o primeiro passo para um entendimento da moral: é preciso fazer, à partida, uma distinção entre a regulamentação humana, por mais admissível que seja, e a perspetiva de Deus. Jesus informa que as prescrições mosaicas referem-se apenas ao caso da mediocridade humana (“a dureza do vosso coração”), mas esta perspetiva não faz parte do projeto primordial de Deus. Este era mais amplo e generoso. Deus tinha-os feito homem e mulher. Porquê inferiorizar um deles?
A união entre o homem e a mulher exprime a meta da plenitude humana. Não é o homem que assume a mulher como objeto de sua propriedade. O projeto de Deus implica a reciprocidade. Tudo o que cause divergência e separação acaba por ser sacrílego.
O Direito Canónico, nesta matéria, é muito abundante, precisamente para não deixar que haja algum abuso quer a diminuir a dignidade fundamental daqueles que são chamados à união matrimonial, quer para os proteger de rigorismos farisaicos. Ou seja, a Igreja pode, fundamentada na autoridade de Jesus, comprovar que legitimidade existe numa união, em favor da verdadeira finalidade desta vocação. A dureza do coração pode significar toda a patologia humana que não corresponde ao plano do Criador acerca do Matrimónio e até de outros caminhos de consagração especial. Sem contradizer o ideal cristão e avançando na interpretação do Evangelho, a Igreja pode orientar os vocacionados através de uma terapia adequada.
Para tirarmos mais proveito da teologia que está neta liturgia, poderíamos alargar a conceção de adultério a outras dimensões. Como vimos ontem, nas apresentações das Santas Patronas, todas elas livraram os seres humanos de correr o risco de viver em desacordo da dignidade para que foram criados ou investidos de alguma missão especial no mundo ou na Igreja. E o seu segredo foi fundamentarem-se na ordem que vem de Deus, considerara esta antes de qualquer ordem que venha da razão humana. O reconhecimento que lhes fazemos fundamenta-se na imitação que elas fizeram de Cristo.
O Apóstolo Tiago garante que os profetas falaram em nome do Senhor e não em próprio nome. Com ele aprendemos que os que são perseverantes não precisam de ser juízes em causa própria, mas confiar que a verdade é que liberta. Por isso, não faz sentido haver brigas por causa dela, mas mútuo esclarecimento, para que ninguém viva na confusão, que é causa de guerras e separações.
Como rezámos através do Salmo 112:
O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. Não está sempre a repreender nem guarda ressentimento. Como a distância da terra aos céus, assim é grande a sua misericórdia para os que O temem. Como o Oriente dista do Ocidente, assim Ele afasta os nossos pecados
