L 1 Tg 4, 13-17; Sl 48 (49), 2-3. 6-7. 8-10. 11 Ev Mc 9, 38-40, na Memória de Santa Rita de Cássia. Reflexão inspirada, em parte, em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
Um dos maiores perigos da Igreja hoje, no meu modo humilde de ver é fazer-se dela um clube de amigos. Ou alguém, dentro dela sentir-se pertença exclusiva da amizade e das capacidades de serviço ensinadas por Jesus, tendo (ou não) a consciência de não levar tudo a sério (pelo pecado ou por ser humanamente impossível) e, ainda, fazendo aceção de pessoas, quanto à capacidade de reconhecer nelas a possibilidade da capacidade de fazer o bem, apesar da não pertença aparente ou institucional.
A “inquisição” surge quando a eclesiologia falha. E o orgulho é o “inquisidor-mor” do tipo “o rei vai nu”. Não existe, nos discípulos, a possibilidade do absoluto monopólio de Jesus. Se o Evangelho é para todos, então existirá a possibilidade de, desde a sua escuta e a tentativa de pôr em prática, alguém começar a pertencer ao caminho de Jesus? É curioso que há muitas pessoas fora da Igreja que nutrem simpatia por ela e os que a habitam. Como podem os seus membros não nutrir simpatia por eles? É como se pretendessem viver só com sentidos internos, sem usar o tato, o olfato, a visão e audição do que está fora de si. Deus cuida de nós e nutre-nos a partir de tantos e de tantas coisas fora de nós e da Igreja! E, em princípio, a partir de “elementos” certificados. Os que vemos e o que vemos fora de nós não é tudo perigoso!
O detonador do orgulho dos discípulos, nas primeiras comunidades (e quiçá também hoje) é o facto de haver pessoas fora que são capazes de fazer algumas coisas que nós também sabemos fazer ─ transmitir verdadeira paz, serenidade, esperança, etc. ─ quando, na verdade, ainda, dentro, não a tinham encontrado, mesmo estando no meio deles: Jesus. O Senhor deixa-Se contemplar e ajudar ao perto e ao longe. E, não raramente, o Farol vê-se melhor e atrai desde longe, sendo, por vezes, difícil de se ver e sentir ao perto. Por isso é que Francisco já avisou de que só se sai de labirintos olhando para cima. No seio das primeiras comunidades cristãs tinha surgido a tentação que induzia ao monopólio e a fixar, de forma rígida, as caraterísticas que deviam ter os verdadeiros seguidores de Jesus. Quem estiver atento ao próprio bispo, vai reparar que ele tem de amar a todos, não obstante as diversas distâncias e níveis de pertença (veja-se o quadro 53 na página 188 deste estudo do sociólogo e teólogo Alfredo Teixeira, entre o católico nominal, o praticante ocasional, o praticante irregular, o regular, o observante e o militante). O Evangelista Marcos também viveu este drama: o de um zelo que pode matar mais do que expandir os processos da fé. Por isso, exorta a sua comunidade a não pretender para si o sacrílego monopólio do Filho de Deus.
Uma das dificuldades que me parece mais evidente no lidarmos com o Ecumenismo, desde a própria Igreja, não é o facto de existirem outras formas de crer fora dela, mas a insegurança em relação à própria pertença. (Um dia uma senhora veio ter comigo na boda de um casamento e, contando-me que tinha passado para outra confissão de fé, perguntou-me o que eu achava. Eu respondi-lhe: depende. E ela pediu-me que me justificasse. Ao que observei: se onde se encontra leva tudo a sério, está bem.) Quando se está inseguro quanto ao próprio caminho interior, até o relacionamento externo com as criaturas do mesmo Deus sai prejudicado. Não é por acaso que a encíclica Laudato Si’, propondo a ecologia integral, navega entre as raízes antropologicas dos problemas e as necessárias educação e espiritualidade ecológicas.
Foi e é necessário, por isso, algum critério objetivo para distinguir os verdadeiros dos falsos profetas. Na Igreja primitiva apareceram algumas, como Mt 7,16 e a “Didaké” (11,8-12) que fazem depender a resposta do comportamento ético A 1ª Carta de João fá-la derivar de uma clara confissão doutrinal. O “Pastor de Hermas” (mand 11,7) de uma relação positiva com a comunidade no seu conjunto. O “Pseudo-Clemente” (hom 2,10) do cumprimento das suas profecias. Paulo, em 1Cor 12,3, insinua que enquanto alguém não se separa expressamente de Jesus, dizendo “maldito seja Jesus”, pertence à comunidade de Jesus.
A liturgia de hoje é uma boa lição para dirimirmos ─ a partir da certeza de que a missão da Igreja não se baseia no poder, mas no serviço ─ o debate entre progressistas e tradicionalistas. Paulo levanta este problema nas suas cartas aos Romanos (cap. 14 e 15) e aos Coríntios (cap. 8 e 9), analisando que na sua comunidade existem os “fortes” e os “débeis”, dando conselhos a uns e a outros, que não se condenem e se compreendam. Todas as exortações que emanam das situações eclesiais que levaram os evangelistas e apóstolos a escrever são válidas dentro do marco de uma eclesiologia da “comunidade” e não da “sociedade civil”. Voltamos ao mesmo assunto de ontem: quando a Igreja deixa de ser simplesmente comunidade e se organiza à imagem da sociedade civil, vê-se obrigada a utilizar todos os meios de repressão externa de que se servem os poderes deste mundo. A inquisição não se compreende sem que tenha havido, primeiramente, um fracasso essencial na eclesiologia.
Santa Rita de Cássia, no século XV, deixou-nos um sublime exemplo de paciência e de compunção. Desejando viver uma vida em Cristo, vive um matrimónio de cônjuges oriundos de classes distintas, entre a violência e a conversão do marido, que depois é assassinado por traição. O mesmo acontece aos filhos. Ela quer entrar no convento agostiniano, que só aceita jovens solteiras. Fora do mosteiro começa a cuidar dos doentes. E é ali que tem uma experiência mística. É na constatação da sua experiência de êxtase que as freiras agostinianas não são capazes de a impedir de entrar na sua comunidade. Ou seja, tiveram que aprender a evoluir primeiro elas, para que sua comunidade evoluísse de exclusiva para inclusiva. A vida de Rita mostra-nos que há mais dinâmicas divinas para além da autorreferencialidade das instituições da Igreja. Precisamos de estar atentos e aprender o que significa ser inclusivos para estarmos dentro do projeto de Jesus na sua integralidade, e não se correr o risco de ser autoexcluídos pelo próprio orgulho.
O caminho de Jesus proposto aos seus discípulos não tem nada que ver com quotas de poder, aliás Ele exorta sempre a fugir da tentação do poder. E que a proposta do Reino está aberta a todos, a quantos mais melhor. Para isso, é preciso imitar a sua sensibilidade, sendo-lhe fiel através da não exclusão e da abertura aos que fazem o bem, trabalhando em rede. E cuidando do bem que está em cada pessoa.
