L 1 Tg 4, 1-10; Sl 54 (55), 7-8. 9-10a. 10b-11ab. 23 Ev Mc 9, 30-37. Reflexão inspirada, em parte, em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
Há muito que um irmão padre mais velho me alertou para o facto de a sociedade civil se projetar na vida da Igreja. E entendi-o como ele mo fez perceber: não só como influências externas a cruzar-se com as decisões internas da Igreja, mas também a forma política ─ com espírito ou a falta dele ─ como os crentes se movimentam por entre as dinâmicas pastorais, de modo que os interesses pessoais se sobrepõem ao viver eclesial, que, seria desejável, se deve fundamentar no Magistério da Igreja à luz do Evangelho.
Neste episódio que retrata o segundo anúncio da paixão, os discípulos permanecem na sua incapacidade de compreensão. Mas não procuram compreender. Antes, enquanto Jesus discretamente colocava diante deles as “setas” do caminho que leva à salvação, eles interessam-se por assuntos mundanos do tipo “qual de nós é o maior”. Pode acontecer assim quando um ser humano sente complexos de inferioridade e de temor (e os discípulos de Cristo não escapam a este perigo): buscar compensações que os impede de buscar ulteriores esclarecimentos acerca do mistério de Deus. Menos mal que Jesus voltaria a este assunto recorrentemente, (passe a imagem) como o “capinador” que corta a grimpa da erva seca com que os discípulos teimam alimentar o seu espírito mundano.
Pedagogicamente, não restam dúvidas de que só baixando-se e abraçando a condição de um mais pequenino é que os que seguem Cristo podem ver mais longe e ser mais profundamente a partir do ideal que Ele aponta. Por isso, Jesus chama os seus apóstolos à parte, para purificar a visão deles, à semelhança do que fez com o cego de Betsaida (cf. Mc 8,22-26), para poderem ver o seu caminho com mais nitidez e sem tendências ofuscantes do caminho traçado por Ele.
A “faísca” que estava prestes a queimar aquela “palha” toda e, com ela, a possibilidade de boicotar a fundação de uma comunidade messiânica era, não só a cegueira dos discípulos, mas sobretudo a ambição desmedida sobre a primazia de um deles, que não os deixava ver os instrumentos fundamentais da comunidade de Jesus, que são a humildade e o serviço.
De facto, levando a sério o exemplo que Jesus dá ao abraçando uma criança, quantas vidas futuras estão a ser boicotadas hoje por faltar a humildade e o serviço no relacionamento para com os mais frágeis? O próprio Jesus e o Pai se sentem representados por eles! E os membros da comunidade de Jesus têm, também, este papel específico: representar Jesus e o Pai, exigindo-se que o maior e o primeiro seja o servo de todos. Jesus não impõe que um homem se submeta a outro, a não ser pelo serviço em favor do seu crescimento e da sua vocação.
Toda uma eclesiologia que imita modelos civis, quer convertendo-se a Igreja em sociedade civil, quer opondo-se à Igreja existente como rival, afasta-se desta imagem essencial do Novo Testamento. Em boa eclesiologia não se pode falar de acordo e desacordo entre “ambos” os “poderes”, pois a Igreja não deve ser poder, mas serviço. Quando se constatam rivalidades, então alguém resvalou pelo medo que leva à incompreensão de Jesus e às compensações ilusórias.
Vejam-se notícias como esta. Alguns objetivos particulares deitam a perder o melhor da vida cristã através da idolatria de pessoas ou coisas…
Peçamos ao Senhor que nos ajude a mantermo-nos no caminho de mãos dadas a Ele e aos irmãos, não obstante as diferenças e fragilidades.
