navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Gn 3, 9-15.20 ou At 1, 12-14; Sl 86 (87), 1-2. 3 e 5. 6-7 Ev Jo 19, 25-34 – Na Memória de Santa Maria, Mãe da Igreja

No quadro “Mãe da Igreja”, o pintor francês Bradi Barth (1922-2007), apresenta Maria a envolver no seu manto a pequena barca da Igreja, enquanto São Pedro se apoia no mastro da Cruz, deixando-se guiar pelo vento do Espírito Santo. Fonte: Giselo Andrade

Hoje celebramos uma Memória que o Papa Francisco inscreveu na segunda-feira depois do Pentecostes, com um decreto da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos (11.02.2018). “Esta celebração ajudará a lembrar que a vida cristã, para crescer, deve ser ancorada no mistério da Cruz, na oblação de Cristo no convite eucarístico e na Virgem oferente, Mãe do Redentor e dos redimidos”, diz o decreto. Maria já tinha sido apresentada como “Mãe da Igreja”, pelo Papa Paulo VI no encerramento da terceira sessão do Concílio Vaticano II no dia 21 de novembro de 1964, com estas palavras: “Para glória da Virgem e para nosso conforto, proclamamos Maria Santíssima «Mãe da Igreja», isto é, de todo o Povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima; e queremos que com este título suavíssimo seja a Virgem doravante honrada e invocada por todo o povo cristão”

Hoje, São João apresenta-nos, com uma certa arte, um quadro cujo centro é Jesus na Cruz. As outras pessoas presentes são: 4 soldados incrédulos, 4 mulheres crentes e o discípulo predileto.

É a segunda vez que a mãe de Jesus aparece neste Evangelho. A primeira foi em Caná da Galileia. Ou seja, no princípio e no fim da vida pública de Jesus. Na primeira ocasião (em Caná), Jesus dirige a sua mãe algumas palavras estranhas, insinuando que quer começar a sua vida pública a agir inteiramente movido pela vontade do Pai, sem interferências de ninguém. Seja como for, Aquela a quem Jesus chama de “mulher”, naquelas bodas, ajuda a gerar Jesus para a adultez da vida pública.

Aquela que parecia ser uma “lei da separação” termina agora, pois a “hora” de Jesus é também a “hora” de Maria e do discípulos predileto de Jesus, ambos presentes junto à Cruz. A “mulher” está ali para ajudar Jesus a levar a cabo a obra da Salvação.

A preocupação de Jesus por sua Mãe e a sua preocupação pelo discípulo amado, levam Jesus a proferir as palavras que geram a Igreja, aquela casa habitada por Maria e os discípulos representados por aquele modelo de discípulo. Gera-se junto à Cruz aquele afeto maternal e filial/fraternal que serão determinantes para a comunidade da Igreja nascente. A partir de agora, todos os crentes serão filhos de Maria e todos os crentes serão irmãos. Doravante, a pessoa de João servirá de discípulo-tipo e a presença de Maria servirá de acompanhamento propedêutico no caminho com e para Jesus.

Com esta entrega na Cruz e com o testamento da maternidade espiritual de Maria e do discipulado fraternal em João, Jesus sabe que “está tudo consumado”. Quer dizer, que esta “hora” de Jesus é Kairós, graça. Não lhe falta dar mais nada, porque deu tudo: o Espírito Santo.

Se os cinquenta dias da Páscoa que culminam no Pentecostes nos servem de escola para sermos Igreja, com tudo o que de importante nos foi relatado, o momento do calvário serve de sumário: um único sacrifício de Jesus serve para germinar a vida eterna daqueles que n’Ele acreditarem.

Enquanto que Jesus, num único sacrifício, dá início a uma nova história, cumprindo a promessa da hospitalidade no Reino começando através da ajuda humanitária na terra, os homens continuam a teimar com as guerras, como a que se deflagra há oito meses entre Israel e a Faixa de Gaza. Ser admitido no Reino de Deus implica a demissão como aquela que Benny Gantz, membro do gabinete de guerra israelita, ameaçou este sábado demitir-se se o Governo não adotar um novo plano para a guerra em Gaza, dizendo que se o senhor [Benjamin Netanyahu] optar por conduzir toda a nação para um abismo, iremos demitir-nos”.

Na celebração deste Pentecostes, o Santo Padre rezou para “que o Espírito conduza os líderes das nações a abrir as portas da paz”, lembrando que

O Espírito Santo é Aquele que cria a harmonia, a harmonia! E a cria a
partir de realidades diferentes, às vezes mesmo conflitantes. Hoje,
festa de Pentecostes, rezemos ao Espírito Santo, Amor do Pai e do Filho,
para que crie harmonia nos corações, harmonia nas famílias, harmonia na
sociedade, harmonia no mundo inteiro; que o Espírito faça crescer a
comunhão e a fraternidade entre cristãos das diversas Confissões.

Hoje junto-me a esta oração para que cessem as guerras e os reféns possam regressar a suas casas e migrantes e refugiados possam ser acolhidos com o mesmo amor terno com que o discípulo predileto acolheu Maria. O segredo da paz é a oração com Maria e, por Ela, ir até ao Pai, por Jesus no Espírito Santo.

Mosteiro de Santa Maria Mãe da Igreja – Palaçoulo

No Mosteiro de Santa Maria Mãe da Igreja, encontramos as monjas trapistas de Vitorchiano (Itália), que se colocaram as seguintes interpelações, aquando da sua vinda para Palaçoulo (Diocese de Bragança-Miranda):

Como é possível construir um empreendimento deste género numa terra de onde todos emigram? Qual é a aposta ou o sentido de um mosteiro feminino neste lugar? Não será loucura e desperdício? Pertencendo as monjas ao mosteiro italiano de Vitorchiano (Itália), qual a razão da sua vinda para esta terra trasmontana?

E a resposta a estas interpelações são as seguintes:

O que está por trás é uma comunidade. Uma comunidade com uma grande história, não merecida, mas levada a sério… As comunidades contemplativas são colocadas como cidades sobre o monte, como lanternas que iluminam. Ficam no monte, um lugar habitado por quem não vai mais além, por quem é capaz de um amor que sabe abraçar e cuidar a humanidade ferida. Foi o que aconteceu com Moisés no monte Horeb: Deus quis mostrar o seu amor ao povo de Abraão, Isaac e Jacob.

Rezo por estas e outras irmãs que se encontram como que em “estaleiros” como que numa “catedral no deserto”, envolvidas em neblinas invernais que dão mais para interpelações do que para contemplações, para que sejam verdadeiras hospedeiras da esperança, a partir de um cenáculo de oração, num mundo que teima em fazer obscurecer o horizonte do amor infinito que nos atrai.