navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 2, 1-11; | No Domingo de Pentecostes | Semana Laudato Si’

Estamos acostumados a dizer que a seguir à Páscoa a solenidade mais importante é a do Natal. Não erramos, mas acertamos mais se dissermos que é o Pentecostes. Porquê? É porque a Solenidade do Pentecostes ─ que põe no centro do dom do Espírito Santo ─ é consequência imediata da Páscoa de Jesus. A Páscoa de Jesus deu-nos um fruto que é o Espírito Santo. O Dom do Espírito Santo.

O Pentecostes mostra-nos a Páscoa de Jesus no seu máximo esplendor, que é, dito em palavras simples: o amor a sair “fora da caixa”. Em palavras mais teológicas: o “parto” da Igreja em saída, testemunhando a vida nova de Jesus Cristo a todos os povos, através de uma diversidade de dons ou carismas. A vida pública de Jesus até à ascensão dá lugar ao tempo da Igreja, guiada pelo Espírito que Ele desde o Pai nos envia.

A experiência espiritual cristã é uma “ciência” descritiva, na qual entram em jogo não só os nossos sentidos externos, como o nosso interior. Prova-o a forma de Deus Se manifestou no Pentecostes. Reparemos que o Espírito Santo apareceu em sinais sensíveis que puderam ser ouvidos, vistos, tocados e sentidos. Ouvidos no rumor do vento, visto nas chamas de fogo, tocados no poisar dessas chamas em cada um, sentidos a enchê-los por dentro.

E “todos ficaram cheios do Espírito Santo” teve um transborde imediato: “começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem”. Portanto, uma cascata de dons e carismas.

Quais são as consequências da presença do Espírito Santo dentro de cada um de nós?

1º ─ Experimentar o amor de Deus de forma avassaladora, sentindo-nos inundados pelo amor de Deus, como que por um oceano. Como diz São Paulo, o amor de Deus, o Espírito Santo, foi derramado nos nossos corações. O primeiro efeito do Espírito Santo em nós é fazer com que cada pessoa se sinta amada por Deus como um amor muito terno. Tudo o resto (o perdão dos pecados, a graça, as virtudes teologais, etc.) está contido neste amor. Este é o primeiro ponto da comunicação entre Deus e o homem.

2ª ─ Como que por “cascata”, o Amor incondicional de Deus tende a transbordar em quem toma consciência d’Ele e se deixa dinamizar por Ele. Dýnamis (do grego = poder, força) é essa presença de Deus-Amor em nós que nos ajuda a viver como Jesus viveu: falando de forma que todos nos entendam e agindo em favor do bem comum.

O Pentecostes contraste com a torre de Babel: enquanto que esta dá origem à confusão que incita às “guerras” e inimizades (por vezes, de maneira errada baseada em pressupostos religiosos), ao passo que o Pentecostes dá origem ao entendimento e à paz da amizade social.

O Padre Ermes Ronchi diz que

O Espírito Santo não é outro senão o Deus nómada e livre, que inventa, abre portas, sopra as velas, faz coisas que você não espera. O que dá a Maria um filho “fora da lei”, a Isabel um filho profeta e aos apóstolos a coragem de sair do lugar fechado, da vida bloqueada. Um Deus que não pode tolerar estatísticas ou esquemas, nem barreiras de palavras, nem mesmo palavras sagradas: Deus em liberdade. Uma palavra nova que se oferece ao marinheiro como saudade de casa, e ao homem fechado em casa como saudade de mar aberto. O Espírito virá, anunciará, guiará, falará. Rezar ao Espírito é como olhar para a varanda do futuro, que é a terra fértil e inculta da nossa esperança.