navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 1, 15-17. 20-26; Sl 112 (113), 1-2. 3-4. 5-6. 7-8 Ev Jo 15, 9-17 ─ Na Festa de S. Matias, apóstolo | Reflexão apoiada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

Parece-me não haver outra religião ou uma outra forma de crer para além do cristianismo onde Deus humanado chame aos seus seguidores e servos de amigos. Normalmente, a amizade costuma definir-se em termos de igualdade de mútua vantagem e interesse. Só a partir de uma nova definição de amizade é que poderemos compreender esta forma de ser amigos, uma vez que Jesus não ganha grande vantagem da nossa parte, com que Lhe possamos retribuir. O normal seria considerar os cristãos como discípulos ou como servos. Jesus já tinha advertido os seus discípulos que se amassem só os que os amam, parecer-se-iam com os publicanos (cf. Mt 5,46). Esta amizade que Jesus está a oferecer aos seus é bem diferente: é para se aproximar daquele amor que é capaz de amar a todos, sem fazer aceção de pessoas.

Haverá alegria mais completa do que ter um Deus que nos escolha para amigos? A razão profunda é a junção entre Amor e Amizade. E o que Jesus nos pede para isso é, somente, que permaneçamos no seu amor, amando-nos uns aos outros partindo do seu exemplo. Há aqui uma corrente de Amor que começa no Pai e chega a nós por Cristo e, agora, pode acontecer o movimento de regresso do nosso amor mútuo em Cristo para o Pai. É a corrente do Espírito Santo.

Abro aqui um parêntesis para lembrar que quando Jesus interroga Pedro pela terceira vez (Jo 21, 17), não usa a palavra agapáô, mas philéô. Fá-lo para que Pedro acerte na resposta à pergunta, declarando a Jesus a sua amizade autêntica (que vale mais do que uma declaração de amor de fachada). (Confirmar esta interpretação do original a partir de D. António Couto.) Portanto, Jesus prefere uma amizade que caminhe para o amor, do que um amor aparente que que se afaste da sua amizade e do serviço.

O discurso de Pedro denota um estudo aprofundado dos Escritos do Antigo Testamento, descobrindo-se que casos como o de Judas já tinham sido previstos por Deus, uma vez que para Ele não há imprevistos. Denota que Pedro e o seu colégio apostólico estavam habituados a interpretar à luz da Sagrada Escrituras o sentido mais profundo dos acontecimentos. Então, cabe a Pedro a eleição do substituto de Judas. Cabe à comunidade, formada por 120 pessoas (um múltiplo de 12), apresentar os dois candidatos. E fá-lo só depois de Pedro enunciar quais são as qualidades requeridas para tal. A “ratio fundamentalis” daquele tempo referia que teria de ser “de entre os homens que estiveram connosco durante todo o tempo que o Senhor Jesus viveu no meio de nós, desde o batismo de João
até ao dia em que do meio de nós foi elevado ao Céu, um deles se torne connosco testemunha da sua ressurreição”.

Depois de rezarem, tendo a consciência de que a escolha iria ser do Senhor, deitaram sortes. Este procedimento era comum aos judeus, recordados do julgamento do povo entre Saul e seu filho Jónatas (cf. 1Sam 14,41), com a designação de Urim e Tumim (as duas pedras ─ uma positiva e outra negativa ─ que faziam parte do peitoral do Sumo Sacerdote de Israel) indicando o processo de adivinhação utilizado pelos antigos israelitas para descobrir a vontade de Deus sobre determinado evento. É uma expressão proveniente do hebraico e significa “luzes” e “perfeições”. E a sorte caiu sobre Matias.

Está clara, na eleição de Matias, a necessidade de manter a Tradição acesa através de um corpo coeso, de transmitir a iniciativa de Deus testemunhada pelo próprio Filho Unigénito de um amor sem medida transmitido a todos e partilhado por todos. O lugar deixado pelo traidor deve ser assumido com ardor apostólico, para que o caminho vá avante.

Há, na eleição de Matias, dois aspetos muito importantes para percebermos a missão da Igreja que chegou até nós e que somos chamados a ser hoje em missão:

1) Lucas dá muita relevância ao ser testemunha da ressurreição de Jesus, não só ao ter convivido com Jesus na sua vida pública, porque a fé na ressurreição dos mortos unia judeus e cristãos. Por outro lado, ser testemunha dos factos externos da vida pública de Jesus, também o eram os que não eram cristãos. Porém, ser testemunha da ressurreição de Jesus eram um acontecimento acolhido na intimidade do seguimento de Jesus Cristo.

2) É, também, significativo o facto de Pedro ter aceitado “a opinião de todos, a fim de que o escolhido seja recebido com agrado, evitando a odiosidade que se podia insinuar, já que estas coisas, com frequência, são origem de grandes males” (homilia de São João Crisóstomo, bispo).

3) É curioso, ainda, que a sorte tenha caído sobre aquele cujo nome era simples, descrito sem sobrenome e sem adjetivo (o outro era apelidado de “Barsabás” e tinha o sobrenome de “Justo”). De facto, para o ministério apostólico, a Jesus não importa os apetrechos naturais ou sociais, mas a capacidade de um amor autêntico a Deus e aos irmãos. Prova-o o facto de, na sucessão apostólica, os pontífices escolhem um outro nome.

Vê-se na atitude de Pedro, nos Onze e na comunidade dos fiéis o trabalho do Espírito Santo. No n.º 69 da Pastores Dabo Vobis, depois de o Papa João Paulo II ter sublinhado o protagonismo do candidato “necessário e insubstituível na sua formação”, afirma que “o protagonista por antonomásia da sua formação é o Espírito Santo que, com o dom do coração novo, configura e assimila a Jesus Cristo Bom Pastor: nesse sentido, o candidato afirmará a sua liberdade da maneira mais radical, ao acolher a acção formadora do Espírito. Mas acolher esta acção significa também, da parte do candidato ao sacerdócio, acolher as “mediações” humanas de que o Espírito se serve”.