navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sl 44 (45), 11-12. 14-15. 16-17 Ev Lc 11, 27-28 ─ Na Festa da Virgem Santa Maria do Rosário de Fátima. Reflexão apoiada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

(Prefácio Maria, imagem e mãe da Igreja)

Na sua Exortação Apostólica Signum magnum (13/05/1967), o Papa Paulo VI intitula Maria como “Mãe da Igreja e Advogada dos fiéis”. Segundo aquele Pontífice as afirmações contidas neste título são as duas verdades sobre Maria muito úteis para a renovação da nossa vida cristã. De facto, Maria é modelo de crente que unida intimamente a Deus Pai se deixa comover profundamente em relação aos irmãos, acolhendo a Palavra e pondo-a em prática. Aquelas ações destacadas no Prefácio desta Festa são suficientes para descrever o “estar” no encontro com Deus que A torna fecunda e o caminhar decorrente desse encontro para os irmãos, partilhando a alegria que dele transborda.

O Evangelho da Anunciação informa-nos que a manifestação de Deus aconteceu através do Anjo, “tendo entrado ONDE ELA ESTAVA”. No meu modo humilde de ver, Maria tornou-Se uma grande influencer de Deus, como disse o Papa Francisco na vigília da JMJ do Panamá, em 2019, porque soube dialogar com a surpresa de um encontro de amor em que Deus tomou a iniciativa. Também nós somos convidados ao mesmo: no lugar onde estamos a saber perscrutar o Espírito do Amor de Deus que vem ao nosso encontro para nos convidar a viver a mesma aventura do seu amor benevolente.

No Evangelho desta Festa, Lucas apresenta-nos o verdadeiro conteúdo da bem-aventurança de Maria, superando, a partir de um ponto de vista mariano, a oposição que Marcos sublinhava entre a família de Jesus e aqueles que cumprem os seus mandamentos (cf. Mc 3,20-21.31-35). Em Lucas, não importa a família, mas a Mãe de Jesus. Na verdade, Maria já se encontrava como destinatária no discurso de Jesus no planalto das bem-aventuranças (cf. Lc 6,20-22).

As palavras de Jesus encaram a dignidade da mulher acima de todas as limitações e escravidões das antigas e modernas culturas da terra. A mulher não se reduz à biologia. O seu sinal é mais que um ventre e uns peitos (antigo oriente), mais do que um sexo (ocidente moderno). A mulher é sobretudo uma pessoa e, por conseguinte, a sua bem-aventurança é semelhante à do homem: viver o dom da graça de Deus e traduzi-lo numa determinada forma de comportamento. Lucas mostrou, com a transmissão deste Evangelho, que Maria é modelo de fé para os homens. Ela, como mulher e como símbolo de todos os humanos, recebeu o grande dom da presença transformante de Deus na terra. Essa presença concretiza-se como “Espírito criador” e traduz-se no nascimento do Messias, realizando-se no mistério primordial da nossa história: Deus feito homem.

O Prefácio desta Festa ajuda-nos a contemplar como na fé de uma jovem que aceitou a Palavra de Deus começou a realizar-se a nova vida dos homens. A plenitude de Deus manifestou-se numa cena de confiança na qual se mostra o dom de Deus e a resposta crente de Maria. Ela começou a ser o sinal de uma nova forma de existência, concebendo a fé ainda antes de o fazer no ventre. Portanto, a sua bem-aventurança abrange toda a pessoa. Por isso, o louvor de Jesus acerca de Maria é muito mais elevado, porque tem em conta a sua alta dignidade, para além da sua capacidade biológica, e na comunhão com todos os que praticam a Palavra de Deus, numa forma sobrenatural de ser família.

Hoje há uma realidade que me ajuda a rezar a partir desta Palavra: a de todas as mulheres que não puderam ou não escolheram (ou Deus não designou) gerar filhos biológicos e que, como consagradas a algum carisma ou à atividade da catequese ou de qualquer outro serviço concreto, ajudam filhos de outros a crescer na fé e a educar para a vida. Algumas fazem-no em situações precárias ou mesmo de guerra. São sinal de uma bem-aventurança como a de Maria. Todas estas mulheres hão de saber tomar a seu respeito, à semelhança de Maria, o que é descrito por imagens no Apocalipse.