L 1 At 1, 1-11; Sl 46 (47), 2-3. 6-7. 8-9 L 2 Ef 1, 17-23 ou Ef 4, 1-13 Ev Mc 16, 15-20
A ascensão ao céu é um episódio da vida de Jesus muito bem documentado pelos evangelistas, com muitos pormenores que nos ajudam a arquiteturar o essencial da missão da Igreja entre as duas vindas de Cristo.
Neste dia nasceu a MISSÃO que é: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura”. Deste anúncio dependerá a fé necessária ao acolhimento da salvação.
No entanto, como poderia ter acontecido com a Encarnação de Jesus (Maria poderia ter dito que não, José poderia não ter colaborado, os judeus não facilitaram…), o início da missão da Igreja marcada para o Dia da Ascensão do Senhor poderia ter sito “abortado”. Como? Bastaria que os apóstolos ficassem “a olhar para o céu”. Na minha meditação estive a imaginar Jesus a entrar com a sua Cabeça no céu e os anjos a dizer-Lhe: “ó Jesus, os apóstolos estão hipnotizados a olhar para o teu Corpo glorioso e não ouviram o que Tu lhes disseste…”. Ao que Jesus lhes respondeu: “Ide lá dizer-lhes que não fiquem a olhar para o céu virá do mesmo modo que O vistes ir para o céu”. Este “mesmo modo” pode aludir não só a uma vinda extraordinária do final dos tempos, mas também a uma presença ordinária do Senhor Ressuscitado que está no meio de nós: na Palavra, nos Sacramentos, nos pobres, nos pecadores necessitados de salvação.
A missão proposta por Jesus no Evangelho de hoje poderá ser “abortada” se não partirmos em missão. Quantas participações em Missas haverá sem missão? Não existe só o milagre da presença real da presença de Jesus na Eucaristia. Há também os milagres que acompanharão a palavra anunciada. Em Teologia Bíblica aprendemos que nas palavras de Jesus o método da missão também é conteúdo da pregação; método também é boa notícia. Numa ocasião de vivência sinodal diocesana, tive oportunidade de advertir na comissão que liderava que a missão da Igreja não é só realização de tarefas, mas, sobretudo, ter presente o modo ou o espírito com que se parte em missão com os irmãos e tendo em conta os seus destinatários. Sem este modo, alimentado pelo Espírito Santo, tudo poderia não passar de tarefas, desde a Missa ao mais simples serviço. Sem o Amor, quem poderá sobreviver a ativismo sem frutos?
Outro perigo que “aborta” a missão é a autorreferencialidade das comunidades e das instituições eclesiais. O Santo Padre tem-nos advertido muito para este perigo. Por isso, é muito importante a renovação. Quantas vezes ficamos a olhar para “coisas sacras” tempo demasiado, sem um impulso missionário. Está claro, mas nem sempre é óbvio, que as instituições que ocupam mais tempo e gastam mais energias a cuidar da sua autodefesa, tendem a falir; ao passo que as instituições que gastam mais tempo e bens a cuidar das pessoas, prevalecerão.
Na segunda leitura de hoje (opção Ef 4,1-13), o Apóstolo propõe-nos uma ética da vida cristã muito necessária à Igreja, para que nela não nos esqueçamos a missão que lhe foi confiada: a resposta a um chamamento par viver a unidade na diversidade, onde todos os batizados são sujeitos (e não objetos) no caminho para a salvação. Seguindo esta ética fundamental não haverá lugar a detritos de religião, nem partidarismos desnecessários ou prejudiciais. Porque “há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo. Há um só Deus que é Pai de todos, que está acima de todos, atua em todos e em todos Se encontra”.
