navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 17, 15. 22 – 18, 1; Sl 148, 1-2. 11-12ab. 12c-14a. 14bcd Ev Jo 16, 12-15

Ontem contemplámos Paulo a converter um carcereiro de dentro de uma prisão. Hoje o seu ministério desenvolve-se no Areópago de Atenas. Não converte todos os seus ouvintes, por causa do tema da ressurreição dos mortos que não cabia na filosofia deles, mas consegue atrair o Dionísio, a Dâmaris e outros para Jesus Cristo. O processo de evangelização não é de “massas sem fermento”, mas de “fermento na massa”, como se depreende da expressão “havemos de te ouvir falar disto ainda outra vez” e dos que reconsideraram e seguiram os ensinamentos de Paulo. “Fermento” é isto: o pouco que se deixa, suficiente para inquietar mentes e pôr a arder corações para o seguimento livre de Jesus Cristo.

Paulo, imerso na cultura onde quer realizar a missão de Jesus Cristo, parte dessa mesma cultura para a evangelizar. Está a atuar o que mais tarde o Concílio Vaticano II, na constituição pastoral Gaudium et Spes (nn. 53-62), sintetizará, definindo a cultura e reconhecendo-a na sua “autonomia com os próprios valores que permitem o seu progresso e a sua conservação e reveem consequentemente as modalidades de intervenção da Igreja na sua missão evangelizadora”.

O teólogo Rino Fisichella (“Evangelización de las culturas”, in: Diciconario Teológico Enciclopédico, pp. 362-363), reflete que

a evangelização pensou-se sempre em relação com as pessoas; mas o novo conceito de cultura e as novas relações e interconexões que as pessoas e as comunidades têm com ela obrigaram a ampliar o seu horizonte semântico e conceptual. Diante das provocações que chegam do mundo contemporâneo, a Igreja do Vaticano II recolocou-se também o problema da sua forma de relacionar-se com as culturas.

E acrescenta que

A cultura expressa o modo de pensar das pessoas, sua atividade criadora e espiritual, e reflete-se em comportamentos que favorecem o reconhecimento de grupos e comunidades. Sobre a base desta compreensão, evangelizar as culturas equivale a entrar em contacto com as riquezas que constituem a história de um povo. Ao ser a forma de pensar e da ação criativa de homens e mulheres de gerações inteiras, a cultura é capaz, de “per se”, de acolher o Evangelho, já que o Evangelho é, por sua vez, fonte de promoção espiritual e integral da pessoa.
Dá-se, por conseguinte, uma relação mútua, positiva, entre a cultura e o Evangelho. Com efeito, este criou e inspirou – e continua a inspirar nos nossos dias – uma cultura; as culturas, por sua vez, enquanto que tendem a um progresso global, podem ver realizado no Evangelho o sentido de cumprimento ao que tendem. A evangelização das culturas é tão antiga como o cristianismo.

E ainda que

A tarefa que hoje se perfila não é uma tarefa simples. Recordando a expressão de Paulo VI na Evangelii nuntiandi, há que observar que: «a rutura entre o Evangelho e a cultura é sem dúvida o drama da nossa época» (EN 20), e isto não facilita certamente a tarefa de uma forma renovada de interação entre as duas. Assim, pois, é necessário abandonar as expressões de suspeita e de fechamento para assumir a responsabilidade do diálogo e do compromisso para o futuro. Além disso, as culturas da nossa época estão marcadas por um processo de massificação, fruto do papel decisivo que representam os meios de comunicação social. É necessário que uma evangelização das culturas não veja uma obra diabólica na comunicação e nos meios que nos foram dados pelo progresso, mas que atue com eles e sobre eles para que possa produzir-se uma verdadeira cultura e com ela uma consciência renovada de participação e de progresso.

Os gregos de Atenas representavam uma cultura evoluída para a sua época e em comparação com outros povos. Dá, até, a impressão de que já possuem alguns conhecimentos de Teologia Fundamental. Verificamos que lhes faltava, porém, um upgrade: participar no “módulo curricular” de Cristologia (Teologia sobre Cristo) e uma “pós-graduação” em Pneumatologia (Teologia sobre o Espírito Santo). O homem tem uma medida limitada que só será superada com o acolhimento da Palavra divina e da adesão e seguimento de Cristo, no qual lhe será dado o Espírito Santo para a compreensão profunda dessa palavra.

Esta palavra de hoje ajuda-nos a compreender melhor as palavras que Paulo dirá na sua próxima paragem, em Corinto: “nem o que planta nem o que rega é alguma coisa, mas só Deus, que faz crescer” (1Cor 3,7). Peçamos ao Espírito Santo a docilidade suficiente para continuarmos a aprender a aprender, de forma a podermos prepararmos e estarmos continuamente ao serviço do Evangelho.