navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 16, 11-15; Sl 149, 1-2. 3-4. 5-6a e 9b Ev Jo 15, 26 – 16, 4a; Reflexão inspirada em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

Nos últimos dias, andámos a ouvir Jesus a insistir com os seus discípulos “Permanecei no meu amor”, apelando ao mandamento que é “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”, exortando a que se mantivesse unidos no amor, pela obediência e pela oração. Estava a prepará-los para o contraste: o ódio do mundo. E este ─ o mundo ─ seria o contraste da Igreja nascente, comunidade dos discípulos (embora o termo Igreja não seja usado no Quarto Evangelho). Os discípulos são amados por Jesus e odiados pelo mundo. No centro deste contraste, é-nos relevado por Jesus que está a falta de conhecimento: d’Ele e do Pai que está n’Ele. E a falta de conhecimento do Amor entre o Pai e o Filho, leva a não se saber/sentir amados e a ter dificuldade em amar como Deus ama.

Não admira que a primeira experiência da Igreja tenha sido a perseguição, primeiro pelos judeus e posteriormente pelos gentios. Jesus preparou os seus discípulos para perceberem que a perseguição seria habitual e como que “normal” na vida dos cristãos. É que estes são de Cristo e o mundo ama só o que é “seu”. Os discípulos de Cristo dão testemunho de Deus e denunciam os pecados do mundo. Como poderá o mundo amá-los? Tenha-se em conta que a “separação” entre Igreja e mundo não tem aqui um significado social, mas teológico. Fazia parte da cultura dos judeus a perseguição e o ódio serem algo de inevitável, uma maneira judaica de considerar a história, fazendo parte da necessária intensificação do mal como prelúdio do juízo final. Daí que Jesus tenha dito aos seus que “o servo não é maior que o seu Senhor” no confronto com o mal. Jesus viveu no meio do mal e morreu crucificado.

Porém, nem todos rejeitaram e odiaram Jesus. Houve muitos que O amaram, que foram preparados por João Batista e outros seguiram Jesus pelo Seu próprio testemunho. Agora é necessário que o testemunho prossiga para que amor continue. Por isso, Jesus envia aos seus discípulos o Paráclito, o “advogado” que dará testemunho. Fará que os discípulos se recordem das Palavras e gestos de Jesus, aprofundando-os e interpretando-os. Assim, fará deles verdadeiras testemunhas. E está aqui um facto importante: o Espírito Santo dará das testemunhas oculares da vida de Jesus o pleno conhecimento da causa a favor da qual darão testemunho. E há uma profecia concreta: a referente à expulsão dos discípulos das sinagogas pelos judeus, no ano 70. É a atitude do judaísmo face ao Cristianismo, sobre o qual foi lançada a sentença de excomunhão (“expulsar-vos-ão”, quer dizer “excomungar-vos-ão das sinagogas” ). Todos os que, nas sinagogas, reconhecessem em Jesus o Messias da fé cristã eram excomungados. Por isso, Jesus disse: “Todo aquele que vos matar, julgará que presta culto a Deus”. Era assim que julgavam os judeus: por vezes era preciso tirar a vida, julgando prestar um serviço a Deus. Era, para eles, um grave dever religioso castigar a blasfémia com a morte. Era um mal eminente que caía sobre um judeu que se convertesse à fé cristã. Era a ameaça constante que caía sobre os judeus que falavam grego, nas comunidades judaicas onde residiam, precisamente por se terem convertido ao Cristianismo.

No entanto, na missão de Paulo e seus companheiros, relata-se na leitura dos Atos de hoje, um volte-face missionário. Deus conduziu-os para um novo campo de missão onde parecia não haver judeus. Trata-se da cidade de Filipos, uma colónia romana onde os missionários se sentirão estranhos. Os missionários procuraram um lugar onde pudessem ter ouvintes. Só encontraram mulheres e, entre elas, Lídia. Parece que ela pertencia a uma comunidade judaica. E ao ouvir Paulo converte-se. Como era vendedora de púrpura, tinha uma casa abundante para acolher os missionários. Nesta viagem de evangelização, há um novo foco: a mulher, necessitada de promoção. É próprio de Lucas a atenção a este fator da evangelização, uma vez que é neste evangelista que aparecem mencionadas mais frequentemente as mulheres. Suspeitamos que a primeira crente da Europa é a mulher hoje nomeada, uma mulher de grande categoria, a ver pela empresa que tinha e porque “adorava o verdadeiro Deus”. A casa de Lídia, onde “obriga” os missionários a ficar, torna-se num centro de reunião dos cristãos. Esta mulher foi a célula original de uma das comunidades mais fervorosas e incondicionais de Paulo. No entanto, Lucas acentua que a sua conversão é obra de Deus, pois “o Senhor abriu-lhe o coração”.

O que é que temos a aprender com Lídia, a (porventura) primeira cristã da Europa?

Primeiro: a valorização dos espaços. A beira-rio ─ lugar da pregação. A casa ─ lugar da hospedagem. A história de Lídia ajuda-nos a ver e a compreender que precisamos de falar mais de Jesus em espaços onde pessoas improváveis O possam conhecer e seguir. A “a loucura da Cruz de Jesus” tem de ser testemunhada nas ruas. Senão, como é que as pessoas “não-praticantes” podem ter acesso a esta bela notícia de um Homem-Deus que morreu por eles? Não admira que a Missão País vá tendo um “sucesso” crescente…

Segundo: a profissão de fé pode ganhar muito com o poder de uma profissão social (trabalho) se o que se tem for posto à disposição do acolhimento dos missionários. Há muitos pobres cuja situação nos fala de Deus, aliás, Deus está neles. Como podemos não hospedá-l’O neles? Há por aí muitos homens e mulheres empresários a quem se poderia falar abertamente e com coragem do Senhor que está em quem poderiam hospedar. (Estou a pensar em tantos sem-abrigo que deambulam pelas cidades nesta noite e aqui perto de casa… Quem me dera ser um empresário de sucesso, mas não sou nem posso… Mas posso pregar sobre a loucura de Deus…)

Terceiro: que a loucura de Deus vai mais além dos limites impostos pelos homens no confronto com os seus semelhantes. E o ser humano pode embarcar nesta aventura do não-limite através do “conhecimento interior do Senhor, que por mim se fez homem, para que o ame e o siga” (cf. EE 104). Jesus sabe tudo e prova-me que é d’Ele que me posso fiar e não nos poderes mundanos (incluindo aqueles com capa de espiritual). Porque o caminho aberto por Jesus não é de poder, mas de serviço.


Foi por causa da contemplação de estarmos “num tempo de contradições, de enormes desafios e, simultaneamente, de desejo de uma reflexão profunda sobre o humano, sobre a vida e sobre o futuro, a par de uma certa ânsia de reaprender a viver” que Braga acolheu um Congresso de Espiritualidade e Mística intitulado “À procura do não-limite”, demonstrando-se a partir do diálogo entre as ciências “como a dimensão espiritual é crucial para o humano, nomeadamente quando se fala de desenvolvimento pleno da pessoa, de felicidade, de empreendedorismo, de liderança, de resiliência, de experiência religiosa, de política humanista, de educação e formação integrais, de identidade de certa nação e de uma cultura, de Europa e de globalização”. É desde esta perspetiva que podemos dizer que Paulo e os seus companheiros, incluindo mulheres como Lídia, são místicos que não só estão a fazer história, mas também teologia.


A Igreja tem, nos últimos tempos, revalorizado os desafios sociais, através de posturas pastorais e momentos de formação para os seus agentes pastorais. É o caso da Jornada Nacional do Diaconado Permanente, promovida pela Comissão Episcopal Vocações e Ministérios da CEP, com a ajuda dos delegados diocesanos do diaconado permanente, este ano sob o tema “Desafios sociais na missão do diácono”. Uma postura corajosa é, também, a do episcopado espanhol ao perguntar-se “O que votaria Jesus diante de um emigrante?“, assumindo-se que os migrantes e refugiados são pessoas com uma única etiqueta, como a de todos: a de ser filhos de Deus. Quem não os assume como irmãos como pode comungar na Eucaristia? Ali procura-se “remasterizar” a pastoral em favor daqueles que são profetas do “clamor de Deus”.