navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 4, 32-37; Sl 92 (93), 1ab. 1c-2. 5 Ev Jo 3, 7b-15
Reflexão inspirada em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

Nicodemos era um insigne dirigente judeu que, após a primeira atuação de Jesus em Jerusalém, junto dos vendilhões do Templo, por causa da grande impressão que lhe causou, decidiu em pedir-Lhe uma entrevista que, à primeira vista, poderíamos de caracterizar de improvável. Neste caso, como em muitos outros, porventura raros, mas de intervenção divina, o improvável dá lugar ao encontro com o humanamente incompreensível.

Nicodemos é um homem especial: é de boa vontade e está disposta a aceitar o ponto de vista de Jesus. Reconhece que a sua atuação é própria de um enviado de Deus. Nicodemos é um homem sem preconceitos e sem preocupações. Como bom judeu que era, também o tema do Reino de Deus girava à volta da sua cabeça, a ver pelas perguntas que faz a Jesus.

O tema de fundo do Evangelho é o Reino de Deus e é só nesta circunstância que João fala do Reino, aproveitando-se da personagem de Nicodemos. As especulações sobre o Reino, por parte dos judeus, não levam a parte nenhuma, porque levavam tudo à letra, como inicialmente Nicodemos (nascer de novo, quer dizer voltara a sair da barriga da sua mãe?). Conforme a figura de Nicodemos é para João evangelista um personagem “funcional” para falar do Reino, também a sua abertura ao “como” é que se “nasce de novo” leva a aceder à compreensão das explicações de Jesus e a abertura ao Reino que Ele propõe.

Não era nova a ideia de que o homem tinha de “renascer” ao adotar uma nova religião ou sistema filosófico, já conhecida na antiguidade, mas, nas palavras de Jesus, não bastava uma mudança de mentalidade. O novo nascimento que Ele propõe é um nascimento “do alto” ou “de Deus”, possibilitado por Aquele que é do alto ─ Jesus ─ ter vindo à terra. O nascimento “da carne e do sangue” é insuficiente e inadequado em ordem à pertença ao Reino.

Não basta a expetativa ou desejo do Reino; é imprescindível a presença do Espírito Santo que, através de Jesus, entra em cena como agente regenerador. O homem, por meio da fé, é chamado a aceitar o que agora lhe é oferecido. Esta nova ordem da existência ultrapassa as possibilidades humanas e é gratuitamente dado por Deus ao ser humano. O que nasce da carne é carne e o que nasce do Espírito é espírito. Quando o Espírito Santo toca o homem, nasce como que uma personalidade nova graças à qual ele é capaz de responder a Deus. O argumento de Jesus baseia-se num antigo princípio filosófico: similis similem parit ─ o semelhante gera algo semelhante a si mesmo, o gerado é da mesma natureza do que o gerou.

As palavras de Jesus foram postas por escrito quando o Batismo cristão era uma realidade amplamente vivida na Igreja. Chegou a chamar-se como “renascimento” (cf. Tito 3,5), com dois elementos essenciais já definidos por Jesus: a água, com o simbolismo de purificação que apaga o pecado; e o Espírito, que é quem confere a eficácia à água purificadora em ordem ao novo nascimento.

Nicodemos é uma figura parecida com Tomé. Porém, enquanto este quer tocar para acreditar, Nicodemos quer entender, mas não lhe é fácil. O que lhe faltará? Faltar-lhe-á ultrapassar as categorias humanas para a aproximação do mistério de Deus. Os Atos dos Apóstolos apresentam-nos o fator que vem “do alto” que e que é determinante para nos sentirmos abarcados pelo mistério não obstante a limitada compreensão do mesmo: a comunhão de todos em Cristo. Trata-se de pertencer a uma existência teocêntrica e não antropocêntrica. Uma vida que tem origem em Deus e não no homem. Através do “vento que sopra onde quer” (pneuma).

O eixo que ajuda Nicodemos a dar o salto entre as categorias humanas e a revelação divina é a resposta de Jesus ao “como” se dá esse novo nascimento. Foi a experiência da Igreja e o testemunho dos cristãos que amplificaram a intencionalidade das palavras de Jesus sobre o Batismo e a pertença ao Reino de Deus. O batismo é uma realidade palpável, terrena; o Espírito é do alto, surgindo como enriquecimento da vida humana, introduzindo-nos no mundo divino, “do alto”. A chave de compreensão é-nos dada pelo Filho do homem, Aquele que teve a experiência “do alto” e tem a experiência das coisas “da terra”. Entre os humanos, só Jesus é que tem experiência direta das coisas do alto, porque Ele “desceu do alto e volta para ele”. Em si, o Filho do homem tem os dois “mundos”, sendo o ponto de união entre eles.

Como pode, então, o Filho do homem “descer” e “subir” do/ao alto? A resposta está na “elevação” da Cruz e da glória da exaltação. No Evangelho segundo João, a crucifixão de Jesus é a sua glória. É eloquente o termo comparativo: “assim como Moisés elevou a serpente no deserto…”. Este “sinal de salvação” adquire pleno sentido na em Cristo: olhando para Jesus e acreditando n’Ele obtém-se a salvação, a vida em plenitude, a vida eterna.