navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 7, 10-14; 8, 10; Sl 39 (40), 7-8a. 8b-9. 10. 11 L 2 Heb 10, 4-10 Ev Lc 1, 26-38 ─ Solenidade da Anunciação do Senhor (transferida)

Já ouvimos dizer que um dos melhores símbolos para caracterizar o papel e o lugar de Maria na Igreja é o “cálice” como recetáculo do Sangue de Cristo (inspirados em H. Urs von Balthasar). À luz do mistério pascal que provocou a transferência desta Solenidade, também podemos dizer que Ela é a primeira “âmbula” do Espírito Santo para a Encarnação do Verbo, mesmo antes dos discípulos reunidos no Cenáculo, sobre quem Jesus sobrou e deu o mesmo Espírito, e, ainda, antes de que os nossos bispos soprassem sobre as âmbulas do azeite perfumado a ser consagrado na Missa Crismal de Quinta-feira Santa. Maria foi a primeira a espalhar aquele perfume da presença de Deus, levantando-se e indo ao encontro de sua prima Isabel.

Como ontem ─ Domingo II da Páscoa ou Domingo da Divina Misericórdia ─ meditámos, antes que nós pudéssemos abrir por dentro as portas dos nossos corações a Jesus, Maria escancarou a porta do seu Coração Imaculado a Deus Pai. A partir daquela declaração de consentimento “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” é que o Verbo eterno do Pai pôde dar início à sua existência humana no tempo. É comovente como Deus respeita a liberdade humana, mas ao mesmo tempo quer precisar dela. E ali está Maria, para ser objeto deste respeito e, ao mesmo tempo, ter a oportunidade de ser livre diante de Deus.

Há aqui um duplo “Sim” a dar início ao projeto salvífico da Encarnação do Verbo: o sim de Cristo na obediência à vontade do Pai e o sim disponível de Maria. Agora, é necessário um terceiro sim: o sim generoso de cada um de nós, para que se possam satisfazer aquelas que o Papa Francisco refere serem as duas necessidades fundamentais dos discípulos-missionários: a de acolher Jesus no interior de cada um de nós e o de que a Igreja esteja no meio do mundo.

Para isso, precisamos de nos abrir à verdadeira liberdade através da obediência da fé. E o caminho é este, como em Maria: para praticarmos o que Cristo nos mandou, precisamos de O acolher primeiro no nosso coração. Primeiro Maria acreditou e, depois, realizou-se aquilo em que Ela acreditava. É o caminho da Lectio divina ou Leitura orante da Bíblia: entre a leitura e a ação, passando pela meditação e oração. Se nos pomos a jeito, aperfeiçoando progressivamente a nossa sensibilidade à Palavra, acontecerá que frutificará em boas obras a partir dos nossos corações, com docilidade e constância, e em favor dos outros.

Ao mesmo tempo, dissipar-se-ão todos os tipos de medo, inclusivamente aquele com que nos justificamos diante das propostas da novidade de Deus. Abrir-se-ão os olhos do nosso coração aos sinais que Deus coloca no nosso caminho, como aquele sinal que fez Maria não perder tempo e levantar-se apressadamente para ir ao encontro da sua prima Isabel.

Se existe uma estreita e rica analogia da “Anunciação” a José (cf. Mt 1,18-24a) e a “Anunciação” a Maria (cf. Lc 1,26-28), que também nós possamos reconhecer no anúncio pascal que recebemos e transmitimos nos compassos de Páscoa como a gestação da vocação presbiteral que está em nós. Que este complexo e unidade bio-psico-relacional-espiritual que é cada um de nós possa ser, também, “cálice”, “âmbula” ou “cântaro” para transportarmos Jesus ao encontro dos outros. Fazer a vontade de Deus é a “rubrica” fundamental do novo e definitivo culto que Jesus veio inaugurar com a sua Encarnação. Maria abriu a porta ao que Jesus haveria de certificar com a sua Vida, Morte e Ressurreição: alimentar-se do amor de Deus para ser canal da sua vontade salvífica.