L 1 At 3, 11-26; Sl 8, 2ab e 5. 6-7. 8-9 Ev Lc 24, 35-48 ─ Na Quinta-feira da Oitava da Páscoa
À luz do Evangelho, imagino uma visita pascal durante todo o tempo pascal ─ que vai desde o Domingo de Páscoa da Ressurreição até ao Pentecostes ─ os cristãos a encontrarem-se uns com os outros, nas suas casas, nos tempos livres dos dias “de fazer” e aos fins-de-semana, a festejar a fé no Cristo Ressuscitado.
Então, e o padre? “Arreda-te, que dependência doentia!” No meu humilde modo de ver, o encontro onde o padre deve estar, pro sem ele não pode ser, é o da Eucaristia. Quando muito, a sua visita às casas das pessoas e famílias poderia ser durante o tempo da Quaresma (que também é Páscoa=passagem), disponibilizando-se para conhecer, acompanhar espiritualmente, confessar…
O “economicismo pascal” levou a que a dinâmica pascal andasse à volta do Domingo de Páscoa e da “Pascoela”, portanto: uma semana. Pena. E fazemos isso com muitas outras semanas: de Oração pelos Seminários, de Oração pelas Vocações, pela Vida, etc… sempre por causa de um economicismo ora espiritual, ora material. Pena.
E o eco anunciador daquele Acontecimento? Os encontros humanos que têm o significado de “cristãos” poderiam melhor ser momentos espontâneos em que os que se encontram partilhassem memórias da sua vida cristã e não: “ó Manel como vai a tua vinha?; ó João, como está o teu gado?” ─ estas perguntas também fazem parte se delas se purgar a graça do Senhor que em tudo nos ajuda a progredir… nomeadamente no testemunho crente de quem fala dos sofrimentos e doenças dos irmãos/vizinhos que o Senhor ajuda a suportar e a cuidar com os desenvolvimentos de hoje.
Corremos o risco de a vida cristã e a vida humana acontecerem em duas camadas: cruzam-se, mas quase não se tocam, como se de duas carruagens se tratasse. E o coração não chega a arder… Assim, uma celebração minoritária e minimalista da Páscoa descarta a aparição dos ausentes ou a aproximação aos ausentes. Os relatos das aparições do Ressuscitado falam de uma dinâmica fora de portas. Uma celebração muito fechada da Páscoa sabe a túmulo que custa a assumir como não vazio e a uma Eucaristia que não passa de Santo Sacrifício a Único Sacrifício. E os oito domingos da Páscoa não são “tempo comum”! E a Cruz de Cristo Morto e Ressuscitado é com flores e de resplendor! Não sendo assim, não admira que haja muitos cristãos sem rosto de gente salva.
Os encontros cristãos ─ à luz dos relatos das aparições do Ressuscitado ─ não são atos de posse do mesmo Ressuscitado, mas encontros humanos em que o Ressuscitado aparece para deixar a marca da paz. E quando esta se acolhe, os “tocados pela paz do Ressuscitado” saem ao encontro de outros, para que a mesma paz apareça. As pessoas metem o pano, o Senhor passa para “coser” com a linha da paz.
Os Apóstolos mostram-nos o assombro que irrompe na rua e no quotidiano, fruto desta Páscoa e não meramente da realização fiel de ritos. Brota da vida que acolhe a Vida nova, que tem consistência por ela própria, pela força do Espírito Santo. Se não cooperarmos, soprará onde quer.
