L 1 Dn 13, 1-9.15-17.19-30.33-62 ou Dn 13, 41c-62; Sl 22 (23),1-3a.3b-4b.5.6 Ev Jo 8, 1-11
Reflexão inspirada em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
Com o Domingo V da Quaresma, fomos convidados a conviver com aquela derradeira “hora” de Jesus, para a qual Ele veio e da qual Ele não desistiu. Esta semana já tem tons de Paixão, tapam-se as imagens dos Santos. Somos convidados a estar sem reservas e camuflagens diante de Jesus ou diante de Deus com Jesus. Porque as causas que levam à Paixão estão aí e os motivos que a levam a abraçar com amor também.
Hoje, a liturgia apresenta-nos duas mulheres. Ambas são prefigurações da Igreja: purificada dos seus pecados nas águas do Batismo e da Penitência, defendida das tentações e acusações injustas de seus perseguidores, ela é a nova Eva, fruto da misericórdia de Deus, ao lado de Cristo, o novo Adão. Assim é o fruto do Mistério Pascal, que nos preparamos para celebrar.
O caso apresentado a Jesus era claro, pois é dito que aquela mulher fora «surpreendida em flagrante adultério». Jesus encontra-Se diante de um verdadeiro dilema que Ele resolve não descartando a Lei de Deus, mas desconstruindo a forma como ela é aplicada pelos homens. O divórcio era automático (hoje dir-se-ia latae sententiae). E sobre a pena de morte através do apedrejamento, o que dizer? Nem todos partilhavam esta atitude tão rígida, mas é evidente que os protagonistas desta história ─ os doutores da Lei e os fariseus ─ a adotavam. E aproveitaram esta ocasião para que a Lei fosse executada com todo o rigor.
Evidentemente, o zelo peço cumprimento meticuloso da Lei era, neste caso, um disfarce. A intenção oculta e inconfessada era comprometer Jesus. O disfarce era perfeito. Era lógico convidar um jovem rabino, que tinha ideias próprias, inclusivamente sobre a Lei, a pronunciar-se num caso tão complexo. Os casos fáceis qualquer um os resolve. Os opositores de Jesus tinham tudo a seu favor. Neste caso, os atributos de compassivo e misericordioso de Jesus seriam anulados.
Mas havia algo de mais sério e comprometedor: sob a administração do Império romano, os judeus tinham perdido o direito da aplicação da pena de morte (cf. Jo 18,31: Disse-lhes Pilatos: «Tomai-o vós e julgai-o de acordo com a vossa Lei». Disseram-lhe os judeus: «Não nos é permitido matar ninguém»). Uma decisão a favor da lei da pena de morte teria comprometido Jesus seriamente, diante das autoridades romanas, por interferir na administração daquela província do Império. Caso contrário, se Jesus Se pronunciasse contra a Lei, a sua situação era ainda mais embaraçosa, considerada a partir da sua missão. Com que autoridade se apresentaria ao povo como Mestre? Com que direito explicava a Lei um homem que se pronunciasse contra as duas determinações? Não teria nenhum direito a manifestar qualquer tipo de pretensão messiânica.
Jesus inclinou-Se até ao chão e começou a escrever na terra. Tem-se especulado sobre o que Jesus teria escrito, mas conclui-se que é uma questão “bizantina”. Um dia perguntei a um professor meu de Sagrada Escritura e ele ensinou-me que não interessa o que escreveu, porque o gesto fala por si, como fator distrativo da intenção dos falsos acusadores. A sua atitude é a de quem não quer condenar. Não há nele agressividade nem fanatismo. O seu gesto traduz o desejo de dar uma resposta prudente e pensada. Para além do nervosismo que aquele silêncio provocaria nos acusadores.
E eis que daquele silêncio sai a nova lei eloquente: «Quem estiver inocente atire a primeira pedra». Ora, para justificar a culpa castigada com a pena capital, era necessário o depoimento de duas testemunhas, como se comprova no caso apresentado na primeira leitura de hoje. O processo judicial judaico baseava-se essencialmente na probidade ou integridade das testemunhas. Os juízes não se fixavam tanto nas provas independentes quando na probidade de quem as aduzia. Se as testemunhas eram fidedignas isso bastava, proferia-se a sentença e a testemunha tinha o direito e o dever de atirar a primeira pedra. Tendo em conta a grande responsabilidade das testemunhas, eram requeridas uma série de condições prévias à aceitação da sua palavra. Se a sua probidade fosse posta em causa, devia proceder-se a uma investigação que provasse que, de modo algum, estavam implicadas no caso em discussão, nem em nenhum outro assunto ilegal. Se fosse descoberto que a testemunha era falsa, recairiam sobre ela penas severíssimas. Daí que a resposta de Jesus não deva ser qualificada apenas de inteligente, em ordem a sair do impasse em que O tinham metido, mas como um verdadeiro ataque contra aqueles que O atacavam. De facto, ninguém se atreveu a atirar nenhuma pedra. Quem poderia gabar-se de estar livre de toda a culpa?
Uma vez desaparecidos os juízes e acusadores, Jesus fica a sós com a mulher. Converte-Se então em juiz misericordioso. Considera verdadeira a culpa daquela mulher, mas com a respetiva admoestação, absolve-a e diz-lhe que não volte a pecar. Um exemplo prático da vida e missão de Jesus, que não veio para julgar, mas para salvar o mundo.
O Papa Francisco ajuda-nos a refletir que, diante das acusações das pessoas obstinadas, a atitude ensinada por Jesus é o silêncio. É deste aparente silêncio de Jesus que nasce uma estrada nova para o pecador, através da via da misericórdia.
