L 1 Jr 31, 31-34; Sl 50 (51), 3-4. 12-13. 14-15 L 2 Heb 5, 7-9 Ev Jo 12, 20-33 ─ No Domingo V da Quaresma (B)
No evangelho deste 5º Domingo da Quaresma, Jesus declara que “chegou a hora”. É a expressão mais repetida hoje. Chegou a hora para a qual Ele veio e que o discípulo amado faz questão de sublinhar. Nos últimos dias da Quaresma escutámos “aproxima-se a hora” e “ainda não chegou a minha hora”. Mas hoje, no 5º Domingo da Quaresma, estamos na iminência da sua Paixão. Aquela hora para a qual Ele veio e da qual não quer desistir.
Há momentos da nossa vida que se parecem um bocadinho com esta “hora” de Jesus. Por exemplo: a hora de sair de casa para fazer um teste escolar, a hora de ir para o trabalho (sobretudo, a hora do final de domingo e início de segunda-feira), a hora de ter uma conversa séria com alguém, a hora de sair de casa para ajudar alguém que sofre, a hora de levantar do sofá para nos comprometermos com algo que faça a vida valer a pena, a hora de assumirmos as nossas fragilidades, etc. Todos nós já experimentámos um pouco daquela hora da entrega de Jesus.
E é a forma como vivemos esta entrega que dá testemunho de O seguirmos e de estarmos com Ele na direção dos outros. Como Filipe e André. Os gregos sentiram-se muito atraídos por Jesus, desejavam vê-l’O, e tiveram vergonha de ir ter com Ele diretamente. Como fizeram? Primeiro foram ter com Filipe, depois este foi pedir ajuda a André, e foram os dois juntos dizê-lo a Jesus. Levar a Jesus ─ deve ser este o movimento dos cristãos em relação a todas as pessoas. Ser facilitadores do encontro de Jesus e não ser “alfandegários da fé”.
No entanto, apesar de Jesus ter uma grande capacidade de atrair até os pagãos ou gentios, naquele momento não lhes dá atenção ou não lhes responde diretamente. Começa a dizer palavras que soam a testamento espiritual destinado a toda a humanidade. Porque será? De facto, Jesus não tem tempo a perder em encontros que ficam fechados num certo núcleo; quer aproveitar o tempo que ainda lhe sobra para deixar nos discípulos a vontade de se configurarem com Ele e com o seu estilo de vida, após a sua morte e ressurreição. Ele promete: «quando for levantado da terra atrairei todos a mim». E vai cumpri-lo. Como?
Por um lado com o modo de O seguir: a lógica da comunhão contida na parábola do grão de trigo. Se este morrer dará muito fruto. Contrária a esta lógica é a da solidão de quem vive a pensar em si próprio, uma vida fechada e concentrada em si mesma, que está destinada a acabar. Pelo contrário, uma vida perdida para os outros, uma vida que ama e se dá, é uma vida que entra numa lógica de relação e é uma vida realizada. A comunhão tem um preço e esse preço é morrer pelos outros.
Por outro lado, é a presença, no mundo, de discípulos-missionários que se amam uns aos outros e amam toda a humanidade imitando o coração misericordioso de Deus e procuram ver novas todas as coisas, que mostram que Cristo continua a atrair todos a Si. Por isso, desde a celebração do seu Mistério Pascal, partem em anúncio por todo o lado levando Cristo a todos (neste sentido, é pena que o anúncio pascal costume ser dentro de “portas”; precisamos de mais sinais exteriores deste anúncio de que Jesus está vivo nas comunidades e a partir das comunidades cristãs).
Mas está escondida nesta liturgia da Palavra uma notícia ainda mais extraordinária. Sabeis qual é? É a que está profetizada desde Jeremias: Hei-de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração. Isto quer dizer que Deus não está só em quem é enviado a anunciar. Ele está presente na alma e no coração de cada pessoa. As nossas almas e os nossos corações não são elementos fundados por nós, mas criados pelo próprio Deus. Quer dizer, a nossa capacidade de O acolhermos no testemunho de um irmão ou irmã já está inscrita dentro de nós. E ouvirmos um testemunho verdadeiro pode ajudar a despertar a coragem de sairmos de dentro de nós, através do serviço aos irmãos.
Neste fim-de-semana em que os seminaristas vêm à diocese para dar testemunho vocacional nas celebrações eucarísticas em que iremos participar, vamos poder contemplar o bem que Deus tem feito nas suas vidas, na aventura da configuração com Cristo, demonstrando que as vossas orações não são em vão, na perspetiva de poderem vir a servir o povo de Deus à maneira de Jesus.
Portanto, o que está semeado na alma e no coração de cada um de nós associado ao testemunho de Jesus e ao testemunho subsequente dos seus discípulos é o que faz a aventura da missão da Igreja a caminho e a caminho do Reino de Deus. Doravante, cruz e glória farão sempre parte deste caminho até à vida eterna. Enquanto amamos os irmãos e para os amarmos melhor, fixemos o nosso olhar n’Aquele que vai ser levantado da terra, quer dizer: morto e ressuscitado. Quer dizer: glorificado. Quer dizer: ponto de atração para todos.
