L 1 Is 65, 17-21; Sl 29 (30), 2 e 4. 5-6. 11-12a e 13b Ev Jo 4, 43-54
A liturgia destes dias são como que uma admonição longa e lenta do que celebraremos na Semana Santa: a existência de um Deus Pai omnipotente que Se faz impotente em seu Filho unigénito para nos salva na nossa impotência. Vê-se isso na cena do Gólgota, perscruta-se isso na busca de Nicodemos, com quem Jesus desce à noite para o iluminar, pode ver-se isso nas nossas vidas, se deixamos Jesus amar-nos ao seu jeito.
A partir deste 4º Domingo da Quaresma, proclamaremos o Evangelho segundo João. Os elementos presentes nestes relatos vai-nos deixando entrever de forma cada vez mais clara a estrutura daquele momento de doação no Gólgota, em que também nós, à maneira daquele ladrão agraciado, podemos ter a oportunidade de aproveitar aquele “pódio” para ali colocar três coisas: o arrependimento e a penitência, a oração, a sapiência ou o acolhimento da graça.
Podemos, como que com um acetato, ver o paralelismo da cena do Gólgota com o enquadramento do episódio de hoje:
1) Todos os que gostariam que Jesus ativasse o seu modo omnipotência de ser, com os seus sinais majestáticos, descartando o sofrimento que implica a mudança e a salvação estão representados no mau ladrão, nos conterrâneos que não receberam Jesus, nos vendilhões do templo.
2) Todos os que fazem aquele caminho de arrependimento penitente, que suplicam a Jesus de forma insistente, estão representados no bom ladrão, em Nicodemos e naquelas gentes da Galileia (que O receberam) que se vão deixando guiar pelos seus sinais até chegarem à evidência de que é assumindo a sua impotência que o Senhor os pode salvar. Caso nítido é o daquele funcionário real que é pai e tem seu filho a morrer. Estou a imaginar o quanto foi difícil para ele assumir que a sua vida não lhe estava a correr bem. Poderia ter recorrido a alguma estratégia própria do seu posto, mas já não seria insuficiente. Então, desceu até Jesus, aonde curiosamente Ele já se encontrava: entre os pobres, os doentes, os humildes, os pecadores. E da oração brota um anúncio.
3) Em terceiro lugar, contemplamos Jesus na confiança de que é Ele que salva. Fazendo-Se um de nós, menos no pecado, eleva-nos a partir de onde cada um de nós está. O que é determinante para a nossa salvação é que estejamos como somos onde estamos e não fazendo de conta que somos outra coisa. É ali que o Senhor nos quer encontrar, assumindo a nossa realidade com uma oração que brote do coração: “Senhor, salva-me” ou “Kyrie, eleison”. Ele faz nos acreditar que assumir a nossa impotência ─ por não nos podermos salvar sozinhos ─ não é uma desgraça, mas princípio da graça. Os milagres que vamos ouvindo proclamar anunciam-nos que a salvação de Jesus é uma verdadeira recriação. É Ele o Verbo que dá a vida, é com Ele que começa uma nova criação, como se anuncia na primeira leitura.
O caminho penitencial da quaresma ─ a partir da escuta da Palavra de Deus, das obras de penitência e do exame de consciência ─ faz-nos conhecer o pecado, que nos faz experimentar a impotência e a necessidade da salvação, e que pode vir só do Alto, leva-nos à verdade de nós mesmos. Mas o que é mais extraordinário é que nos leva, também, ─ de forma mais expressiva na celebração do Sacramento da Reconciliação ─ ao conhecimento da verdade de Deus. E isto é inédito e sempre surpreendente: o nosso caminho penitencial não nos pode levar só ao conhecimento do pecado e à contrição mais ou menos aflita de quem pede perdão, mas também à descoberta da verdade sobre cada um que se torna teologia, teofania, revelação do modo de ser de Deus.
Se esta é a perspetiva da economia da salvação, devemos aprender a aceitar, com profunda ternura, a nossa fraqueza. O Maligno faz-nos olhar para a nossa fragilidade com um juízo negativo, ao passo que o Espírito trá-la à luz com ternura. A ternura é a melhor forma para tocar o que há de frágil em nós. (…) Só a ternura nos salvará da obra do Acusador. Por isso, é importante encontrar a Misericórdia de Deus, especialmente no sacramento da Reconciliação.
PAPA FRANCISCO, Com o coração de pai, 2
Os cristãos não são como o povo evocado no Livro das Crónicas, ontem, como alguém que se vê, contra a vontade, a ir para o exílio para sofrer as consequências do seu pecado. Os cristãos aceitam de bom grado a experiência do deserto, sabendo que ali se poderão encontrar com o primeiro amor e, renovados pela sua graça misericordiosa, poder caminhar para a terra prometida que é a da nova humanidade.
