navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Os 14, 2-10; Sl 80 (81), 6c-8a. 8bc-9. 10-11ab. 14 e 17 Ev Mc 12, 28b-34
Na memória de São João de Deus

Hoje, Jesus encontra-se com um escriba especial. É um homem de boa vontade e aproxima-se do Mestre com sinceridade. Neste diálogo temos a impressão de que a junção entre os dois mandamentos ─ a Deus e ao próximo ─ já estava presente no judaísmo. Porém, havia muitos mandamentos (um emaranhado impraticável) e, também, muitas dúvidas sobre quem seja o “próximo”: se só alguém do povo eleito ou seja quem for. E, por isso, este escriba quer tirá-las com Jesus, fazendo uma pergunta comedida sobre qual seja o primeiro de todos os mandamentos.

Na sua resposta, Jesus é direto e não deixa dúvidas que há dois mandamentos num só, sublinhando a preponderância dos dois mandamentos em relação aos outros todos. O “sumário” do escriba sintetiza o ensinamento de Jesus com um sentido de valor cultual. Este é um ponto importante para o Cristianismo de todos os tempos, uma vez que a dialética entre o primeiro e o segundo mandamento estará sempre presente na história, apesar de Jesus certificar a sua inigualável corresponsabilidade. De facto, não falta quem protagonize um culto a Deus com indiferença em relação aos irmãos e, ao invés, não é rara uma filantropia solidária que ignore a importância de regressar e (re)partir sempre desde a adoração ao único Deus.

Em bom rigor, aquela pessoa que se dispuser a amar a Deus com todo o seu coração, com toda a sua inteligência e com todas as suas forças não vai ser atirada para outra experiência que não seja um amor personalizado de reciprocidade para com o próximo. Assim no-lo garantiu a vida de São João de Deus, falando de um benefício colateral recíproco entre as “duas caridades” ou os “dois amores”:

Se consideramos atentamente a misericórdia de Deus, nunca deixaremos de fazer o bem de que formos capazes: com efeito, se damos aos pobres por amor de Deus aquilo que Ele próprio nos dá, Ele promete-nos o cêntuplo na felicidade eterna. Feliz pagamento, ditoso lucro! Quem não dará a este bendito mercador tudo o que possui, se Ele procura o nosso interesse e, com os braços abertos, insistentemente pede que nos convertamos a Ele, que choremos os nossos pecados e tenhamos caridade para com as nossas almas e para com o próximo? Porque assim como o fogo apaga a água, assim a caridade apaga o pecado.

Liturgia.pt

Neste Liturgia da Palavra, pareceu-me estar numa unidade letiva à maneira do Tratado de Bolonha, em que o aluno se encontra com o Mestre em tutoria (considero que nos faltam mais tutorias como estas, para equilibrar a supremacia das aulas em grupo), em que cada um acrescenta o saber como o colheu na sua vida e trabalho e, no final, o aluno faz uma síntese concretizando o saber numa experiência prática, como, no caso do escriba, sublinhando o exemplo cultual: “… vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios”. O encontro com o verdadeiro amor resulta numa revolução cultual e cultural.