L 1 Dt 4, 1. 5-9; Sl 147, 12-13. 15-16. 19-20 Ev Mt 5, 17-19
Hoje estive com um técnico informático a tentar observar umas 5 linhas de código html que estavam a ser colocadas automaticamente dentro de uma página. Não se viam no chamado frontoffice (a aparência vista pelo visitante da página), mas eram escritas por algum software malicioso ou, simplesmente, por um componente útil instalado por mim no backoffice da página (aquilo que não se vê e que faz a página mostrar o que se quer). Por vezes, acontece assim na informática: há muito código escondido que faz o que promete, ou seja, ajuda à aparição dos conteúdos que se querem mostrar, outras vezes, acumula-se código que não ajuda, ficando a página pesada sem necessidade, ou, até, prejudicando a sua normal visualização ou, inclusivamente, a utilidade da página. Também acontecerá assim com a política. E alguns aspetos da religião também não escapa a esta análise, no que toca a excessos e a defeitos.
Quando estava o técnico informático a telefonar-me estava a ler precisamente esta afirmação de Jesus: “não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra”. Estou a ver Jesus a passar a pente fino o “código html” da Lei escrita no Antigo Testamento e a verificar se está a ser devidamente levada a frontoffice, quer dizer, a ser devidamente testemunhada. E não se trata de um mero cumprimento material. Quando Jesus se refere a “um só destes mandamentos” está a referir-se aos Mandamentos da Lei de Deus e não aos “intrometimentos” das vontades dos homens. Os mandamentos da Lei de Deus levam ao que está afirmado neste texto evangélico, à justiça das bem-aventuranças e a ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5,1 e seguintes).
No versículo 20, que não está no lecionário, Jesus conclui: “se a vossa justiça não superar a dos doutores da lei e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus”. A falsa justiça dos doutores da lei e dos fariseus refere-se, em linguagem informática, a código a mais, obsoleto e que não promete o que afirma, a não ser uma falsa segurança pessoal, mas que deixa o bem dos outros de fora. Acontece com eles o que acontece com um website pesado: mais ninguém lhe dá atenção ou visita. Daí que a vida cristã ou o discipulado missionário tenha de ter um backoffice leve, limpo, onde só esteja escrito o que é necessário para que se chegue às boas obras que garantam a entrada no Reino de Deus. Se para um website de sucesso não basta um backoffice com código inofensivo, mas pesado, mas com um código leve e limpo, assim também no caminho da fé: o essencial que permita viver minuciosamente e sem deixar de fora o essencial que permita caminhar para o Reino de Deus. Tudo o resto é peso histórico. E o que é que, por vezes, temos de fazer com o histórico dos nossos browsers? Apagar a memória cash se queremos navegar bem a partir de cookies e informações atualizadas. Assim aconteceu com o nosso bastidor esta manhã: foi preciso desligá-lo durante uns instantes, para voltar a reinicializar limpo da memória cash que nos estava a impedir de aceder à Internet.
Moisés ensinou ao povo a Lei conforme o Senhor Deus lhe ordenara. E a finalidade desta lei era fazer o povo entrar na terra prometida, pelos trilhos da sabedoria e da prudência. A advertência no final da primeira leitura não é menos importante: “Tende cuidado; prestai atenção para não esquecer tudo quanto viram os vossos olhos, nem o deixeis fugir do pensamento em nenhum dia da vossa vida. Ensinai-o aos vossos filhos e aos filhos dos vossos filhos”. A Lei de Deus é perfeita, porque se refere não só ao que Ele disse, mas ao que Ele fez em favor do povo. Diz o que faz. Não é mero discurso. É ação concreta. Assim é Jesus, que somos convidados humildemente a imitar, sem adições nem contrafações.
O povo costuma dizer “quem conta um conto acrescenta um ponto”. Se este ponto é para esclarecer o fundamental está muito bem. Se não, está muito mal. Lá se vai o conto… Peçamos a Jesus a luz e a vontade necessárias para levarmos o que Ele nos diz a sério, a partir da prática das boas obras. Ao querer não revogar a Lei, mas completá-la, Jesus quis torná-la exequível, colocando-lhe um enlevo que eleva o ser humano, quer dizer, que o transporta “sobre asas de água” e não dificultando o caminho. O Decálogo é um código de libertação e não uma prisão. É para ganhar o Céu e não para ganhar esta terra. São co-mandamentos (como no inglês commandments), ou seja manmdamentos de comunhão com Deus e de Deus com os homens, e não prova de solidão. A sua observação aproxima-nos de Deus, dos outros e, juntos, da Terra Prometida que é a Salvação.
