navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Dn 3, 25. 34-43; Sl 24 (25), 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9; Ev Mt 18, 21-35

Na oração do Pai Nosso em Latim e Italiano, reza-se a expressão “perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” com outra retroversão, respetivamente:

et dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris

e

e rimetti a noi i nostri debiti Come noi li rimettiamo ai nostri debitori

Debita e debitoribus traduz-se por dívidas e devedores; debiti e debitori também. Embora na maioria das vezes, a palavra ofensa possa ser entendida como uma “lesão por palavras”, o dicionário também a refere como “lesão por atos”, “agravo” ou, até, “afetação da saúde de alguém”.

Até agora, pode ser que tenhamos rezado e meditado o Pai Nosso como tendo duas “metades” recíprocas ─ a glória de Deus e a vida da humanidade. No entanto, é nítida a encruzilhada que esta oração, no final, nos coloca: uma vez que a petição sobre a tentação (como todas as outras desta “metade”) está referida ao “nós” (“o pão nosso… nos dai…”, “perdoai-nos”), a expressão “assim como nós perdoamos” (no lat. “sicut et nos”; no it. “come noi”) é uma espécie de comporta que só pode abrir-se para uma vivência solidária das tentações; a alternativa da qual Jesus nos quer livrar é a de vivermos as tentações na solidão.

As versões latina e italiana não deixam dúvidas da correspondência que existe entre o Pai Nosso e a parábola proclamada hoje: devemos perdoar aos que nos ofendem/devem porque Deus também nos perdoa; não perdoar aos nossos semelhantes afasta-nos da misericórdia de Deus. Pelo contrário, perdoar aos nossos semelhantes as suas ofensas ou dívidas, aproxima-nos da misericórdia de Deus e ajuda-nos a ser melhores servos.

A penitência de nos amarmos a tal ponto, como Deus nos ama, leva-nos a contemplar melhor a desproporcionalidade do amor divino provado no Mistério Pascal de Jesus Cristo. Como nos sugere a profecia de Daniel, este tipo de penitência, para ser eficaz, tem os “guinchos” daquela “comporta” dentro do coração de cada pessoa. Pois, o sacrifício agradável a Deus é o “espírito humilhado” e o “coração contrito”. Azarias tem consciência de que a pequenez daquele povo também se pode dever aos pecados, de modo que sem chefe, nem profeta, etc. não podem alcançar a misericórdia divina. Por isso, aquela sua oração é feita com todo o coração, confiante na abundância da misericórdia de Deus. Poderíamos dizer, até, que a oração de Azarias tem, virtualmente, uma certa semelhança com a oração do Pai Nosso ensinada por Jesus: partindo da situação dramática vivida, fruto do pecado, procurando-se reatar a relação que permite voltar a contemplar o poder que liberta e a glória do nome de Deus.