navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Mq 7, 14-15. 18-20; Sl 102 (103), 1-2. 3-4. 9-10. 11-12 Ev Lc 15, 1-3. 11-32

Estamos diante de um trecho do Evangelho que prova, no modo humilde de ver, a existência do verdadeiro Deus. Ninguém, para além do Filho Unigénito de Deus, poderia ter inventado. Os seres humanos, sem o Deus humanado, teriam criatividade para tanto, uma vez que nesta história se convergem a felicidade buscada desenfreadamente pelo ser humano e a novidade de um amor que está sempre de braços abertos para para deixar sair e para acolher na festa. Quem é que impõe condições ao amor de Deus? E que tipo de condições o amor de Deus nos impõe a não ser o de podermos livremente regressar sempre a Ele?

Todos os seres humanos ─ crentes e não crentes ─ podem já ter estado a representar qualquer um dos personagens da parábola, porquanto pródigos das faces humanas do amor que restaura ─ o amor paterno/materno, o amor filial e o amor fraternal ─ e que são expressões do incondicional amor divino. A presença deste é sempre consistente. As suas expressões no ser humano é que deambulam entre o dentro e o fora da perspetiva da “casa do Pai”.

Na sua obra “Procura-se Amigos e Lavadores de Pés”, o Cardeal Seán O’Malley, o.f.m. cap., afirma que nada é mais central no Evangelho que a misericórdia e o perdão. A Parábola do Filho Pródigo pode ajudar-nos a vislumbrar a misericórdia de Deus. É a história da anatomia de um pecado: um mal está disfarçado de bem – a liberdade individual, os direitos à herança paterna – tudo disfarça a ingratidão e a insensibilidade de um jovem que quer fazer a sua vida sem o Pai, sem Deus. Nesta parábola dá-se um movimento de descoberta quando o dinheiro acaba, a vida deixa de ser divertida. Vemos como o pecado não traz a felicidade, só traz vazio. Mas a graça toca o coração do pecador e ele anseia por voltar para a casa do Pai. O filho começa a treinar as frases – como um jovem que se aproxima nervosamente do confessionário: «Pai, pequei contra o céu e contra ti.» No entanto, a cena mais bonita é aquela em que o Senhor descreve o velho pai perscrutando o horizonte – quando vê o seu filho, corre ao seu encontro. O rapaz arrasta os pés, anda devagar – a misericórdia de Deus corre veloz, o nosso arrependimento anda aos ziguezagues com pés de chumbo. Muitas vezes, esquecemos o contexto desta lindíssima parábola. O que a motivou foi a murmuração dos fariseus – «Este homem acolhe os pecadores e come com eles» (Le 15,2). A parábola poderia ter sido intitulada «O Irmão mais velho», ele que de certo modo representa os fariseus irritados. Devíamos perguntar: o que é que fez o irmão mais velho para demover o filho pródigo de empreender o seu fatídico plano de abandonara casa paterna? Lá rápido é ele, a julgar e condenar o seu irmão mais fraco, frisando bem que se dissocia dele – «esse teu filho!» A atitude do pai: «vai à sua procura» é sempre de misericórdia; «tu estás sempre comigo»; «tudo o que é meu é teu»; «o teu irmão estava morto, e voltou à vida… alegra-te!». O pai demonstra misericórdia e ensina a misericórdia. Jesus é amigo dos pecadores. Ele acolheu aqueles que mais ninguém acolheu. Era amigo de publicanos e prostitutas, de Zaqueu, de Levi, de muitos outros que as pessoas respeitáveis rejeitavam. Ele chamou-os à conversão, à amizade, e muitas vezes celebrou a sua mudança de coração com uma festa ou um banquete. Os Evangelhos estão cheios de relatos de conversão.